segunda-feira, 31 de maio de 2010

The Killing Moon



(Uma revisitação dos sons já com algumas décadas, dessa ousadia de superar os «estilhaços do quotidiano», com a magia do olhar e a ternura de novos horizontes).

Nouvelle Vague, The Killing Moon
Emprestado de ojardimassombrado.blogspot.com

Neste Dia ... - Fernanda Pinto

NESTE DIA RECORDO COM SAUDADE…

Amiga, Professora!

Durante toda minha vida,
muitas pessoas passaram por mim,
dia após dia.
Mas somente algumas dessas pessoas,
ficarão para sempre em minha memória.

Essas pessoas são ditas amigas,
e vou ficar com elas para sempre em meu coração,
às vezes pelo simples facto de terem
cruzado meu caminho,
às vezes pelo simples facto de terem dito
uma única palavra de conforto quando eu precisei.
Às vezes por me terem dado um minuto de sua atenção,
e me ouvirem falar de minhas angústias,
medos, vitórias, tristezas...

Às vezes por terem confiado em mim,
e me terem contado também os seus problemas,
angústias, vitórias, derrotas...
Isso é ser amigo: é ouvir, é confiar, é amar.
E amigos de verdade,
ficam para sempre em nossos corações,
irei recordá-la para sempre com carinho e saudade no meu coração.

Neste dia iria dizer-lhe, “Muitos Parabéns”

mas digo-lhe, nunca me irei esquecer de si!

OBRIGADO PROFESSORA! - Os Alunos do 4ºA -

Obrigada professora!
Por ter dito sempre que um dia serei gente.

Obrigado professora, pelas repreensões que me deu, pois sem elas não poderia achegar até aqui.

Obrigada professora, por sempre me aturar apesar das minhas travessuras, jamais deixou de me ensinar.

Obrigada professora, por entrar em meu caminho, sempre me tratou com amor e muito carinho.

Obrigada professora, por sempre me ensinar por isso e outras coisas , sempre a irei recordar.

Obrigada professora, por me oferecer alegria, irei recordá-la com eterna saudade.

(Na data do seu aniversário, e na véspera do Dia da Criança, um texto simples sobre uma professora que conhecemos, com quem todos na escola experimentaram uma convivência de empenho e dádiva aos alunos.)

domingo, 30 de maio de 2010

Belavista - Uma Peça no Panos


Panos é um projecto que a Culturgest pelo quinto ano promove conciliando a dramaturgia mais recente e o teatro escolar ou juvenil. Cerca de quarenta grupos de jovens e adolescentes escolhem uma de três peças. Duas são originais portuguesas e outra é uma tradução do Connections 2009, que é um programa do National Theatre de Londres.

Belavista foi a escolha do grupo Animal para participar nesta importante iniciativa. Escrita por Lisa McGee, trata da concliação entre o real e o imaginado, no território da solidão urbana, onde as histórias são um recurso para superar as limitações do espaço de existência. Apresentado hoje em Guimarães, no Centro Cultural Vila Flor cumpre uma das etapas do Panos.

Lamenta-se apenas que a Câmara Municipal de Santarém pareça tão distante desta iniciativa pela falta de apoio que dá a um conjunto de jovens que procura pelo Teatro redescobrir-se e contribuir por ter uma participação activa na comunidade. Participação feita com inteligência e cheia de dádiva. Estranhos são os critérios das autarquias que pensam ser os cantores da moda nacional os grandes destinatários da promoção cultural de uma cidade. A estagnação e a paralisia de vontades não é estranha a esta atitude tão longe do essencial, capaz de alimentar o espírito. 

quinta-feira, 27 de maio de 2010

«Havia um tempo em que, por estas colinas (sobretudo acompanhando o derradeiro fio de água do Tua, a caminho do Douro), descia um comboio vagaroso e pobre, sujo, com as madeiras ressequidas a desfazerem-se, os varandis das carruagens enferrujados, os tectos corroídos pelo tempo. Chovia lá dentro. Os vidros, em muitas composições, tinham sido quebrados - ou, pura e simplesmente, quebraram-se com o tempo, o uso, a idade. Nos carris, o comboio chiava até encontrar as primeiras vinhas do Douro, relembrando ainda a última paisagem do planalto.

Quando o crepúsculo se despedia em Bragança, partia o derradeiro comboio que chegava ao Tua já noite alta, a tempo do transbordo para a linha do Douro, na direcção de Barca D'Alva. O percurso que desenhara no mapa, de Bragança a Macedo de Cavaleiros, Mirandela, Cachão e Tua, só era conhecido por esse traçado ronceiro, lento, demorado (...) entre uma paisagem de oliveiras, azinheiras e falésias caindo sobre o que restava do rio. (...) O caso da linha do Tua evoca tragédias recentes; mais do que «tragédias», no entanto, evoca o isolamento da região.

Nada disto interessa em Lisboa, tirando excepções muito localizadas. A indústria do asfalto que tomou conta do País, acompanhada pela indústria da camionagem, pela indústria das portagens e pela indústria do esquecimento, não tem a ver com as velhas linhas férreas que desenharam a geografaia de um país onde os carris acompanhavam rios, fronteiras de província, planaltos áridos e solitários - e uma enumeração caótica de designações fora de moda. Ao longo dos anos, destruindo metódica e paulatinamente os comboios, desprezando as populações que os utilizavam e beneficiando os intersses da camionagem e dos combustíveis, o Estado preparou este cenário contra o qual há, hoje, pouco a fazer.

Uns, mais conformados, recordam; outros, menos conformados, resistem e combatem o quase inevitável fim destas linhas perdidas. Um resto de dignidade e de memória devia fazer-nos correr até onde o último comboio regional ainda corre - para o defender. O País - o Estado, os empresários, a indústria - dá o assunto como encerrado e abre auto-estradas, suja a paisagem, promove o grande progresso (...).
Por isso, defender o último comboio regional, seja onde for, é combater este país abjecto que destruiu a nossa paisagem, a nossa memória e a geografia do tempo».


(Sobre o desprezo e o esquecimento que afasta tanto património, do coração dos que sabem ser aquele um Reino de cores e silêncio tranquilos.)

Francisco José Viegas, in Revista Ler Maio de 2010

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Uma Lição...

Acreditem. Não é pelo desporto, por esse chamado desporto rei que atrai multidões. Não é pelas multidões que parecem encontrar neste jogo, neste negócio mediático a felicidade perdida em quotidianos difíceis. Não é por esse negócio milionário que torna os salários de cada mortal um esforço pouco recompensado. Não é pela cor com que se vestem tão dignos executantes desse desporto. Pelo menos, para nós.

Vale a pena falar de José Mourinho. Vale a pena admirá-lo. Sobretudo pelo exemplo que o país nunca soube executar. Vale a pena compreender essa ideia que só pode fazer vencer a ousadia dos que lutam por um ideal, um desafio de conquista no seu próprio quotidiano.

Vale a pena meditar neste exemplo de superação pelo trabalho, pelo esforço, pelo compromisso com um objectivo que por ser difícil é mais aliciante. Vale imensamente reflectir, de como é nas qualidades humanas, na sua promoção que se podem enfrentar os maiores desafios.

Num País comprometido tantas vezes com a facilidade, José Mourinho é o exemplo de um português que nos mostra de como é possível concretizar o que mais aspiramos com confiança e audácia. As pessoas. São elas que permitem criar os sonhos possíveis. Dedicação, esforço e empenho. Não é um exemplo tão necessário num País tão afastado da credibilidade da palavra?

Estrela


Há uma estrela no céu
com que toda a noite sonho.
Por isso, sempre que acordo,
vejo-a inscrita no dorso.

É uma estrela brilhante.
Grande como um sortilégio,
Levo-a pela lezíria,
sinto-a um diamante.

Chega a noite e o meu sonho
volta, de novo, a ocupar-me.
Gostava que a minha estrela
fosse a luz da humanidade.

Amadeu Baptista, Os Cavalos a Correr

Imagem, Laura David, Collecting Stars

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Evocar João Bénard da Costa

«O João Bénard é um menino. É um menino que, a cada momento da vida, acabou de descobrir uma coisa. É sempre uma coisa maravilhosa que tem de abraçar com muita força mas depois largá-la para poder mostrá-la aos amigos e partilhá-la com toda a gente.

Porque se não a partilhar, se não a cantar, se não se destruir a elogiá-la de maneira a ser tão irresistível como ele - até chegar a confundir-se com ele ao ponto de não sabermos qual amamos mais, se ele ou as coisas que ele nos ensinou a amar -, se não puder parti-la aos pedaços para poder dar um bocado a cada um, na esperança que todos a queiram reconstruir depois, ele já não é capaz de amar tanto aquela coisa, porque acredita que a coisa é grande e boa de mais para uma só pessoa e sente-se indigno de gozá-la sozinho. É assim o João Bénard.

O João Bénard é um amigo. É um amigo que, a cada momento da vida, faz sempre como se tivesse acabado de apaixonar-se por nós. Não lhe interessavam nada as coisas que mudaram; as asneiras que fizemos; a decadência em que entrámos; a miséria que subjaz às nossas opiniões ou o grau de petrificação das nossas almas. Para ele, somos sempre os mesmos. É um leal. Está sempre connosco como se fôssemos tão frescos como ele. Puxa-nos pela manga da camisa; protege-nos da tempestade; desata a rir no meio das encrencas; arranja tabaco clandestino; deixa-nos subir para os ombros para vermos melhor; para saltar para o outro lado; mostra-nos fotografias nunca vistas, de actrizes lindas, escondidas debaixo da camisola - e faz tudo descaradamente; não se importa de ser apanhado; não tem vergonha nenhuma; é um prazer estar com ele; parece que todo o universo está em causa. É assim o João Bénard.

O João Bénard é uma alma. É uma alma que, a cada momento da vida, desde que nasceu, sempre fez pouco do corpo e das coisinhas de que o corpo precisa. Tinha um corpo transparente, com a alma a ver-se lá dentro. Ou então era a alma que projectava o corpo no ecrã da pele. É por isso que todos nós o conhecemos como conhece Deus.

Deus, apresento-Te João Bénard. João Bénard, apresento-te Deus.» (1)

( Haverá melhor forma que um amigo para falar de um outro seu amigo? Miguel Esteves Cardoso, há um ano, no Público, sobre o Senhor Cinema, que hoje faz um ano que deixou de falar das imagens que reiventam os sonhos.)

Imagem, http://danossaladeia.blogspot.com

Parabéns Maestro

É sempre reconfortante destacar no mundo dos que vivem fisicamente pelos dias do quotidiano, a alegria da palavra, a ironia ao serviço da inteligência do pensamento e o imenso sorriso de quem compreende essencialmente o ser.

Nascido numa família de artistas, cedo revelou as suas imensas qualidades no campo da música. Estudante no Conservatório, chegou a Viena de Áustria como um aluno brilhante, onde revelou as suas excepcionais qualidades no estudo do piano. Desde esses locais onde a cultura ocidental setecentista e oitocentista brilhou nos olhos de Mozart, Lizt ou Beethoven, enviava para Portugal a sua sabedoria e esse olhar que ainda se recorda pela graça e pela simplicidade.

Compositor de uma imensa obra sinfónica aguarda ainda que um mecenas permita o registo da sua voz musical. Tem pelos locais mais recônditos comprovado o que tantas vezes historiadores e escritores têm enunciado. A curiosidade natural pelo belo, não tanto do público da capital, onde aparecem sempre os mesmos, mas na província, onde entre ovelhas e cabras, olivais e florestas se vai escutar um prelúdio de Lizt. Pela sua imensa capacidade de comunicar elevados valores através da simplicidade, o nosso agradecimento. Parabéns Maestro.

terça-feira, 18 de maio de 2010

O Incompreensível desemprego...

«Quem, no meio de tudo isto, poderá conduzir o País? Quem nunca esteve envolvido num caso obscuro, quem nunca participou em governos desastrosos (...)? É possível que exista alguém que corresponda a este perfil, mas terá certamente menos de 10 anos. E colocar um menor de 10 anos no Governo do País poderá ter consequências trágicas: o País ficaria de certeza sem rumo, com o desemprego elevadíssimo, e manietado por uma crise profunda. Nem quero imaginar o que poderia acontecer» (1).

Com a habitual profundidade de quem compreende o País em que vive, o primeiro-ministro, reafirmou mais uma vez que não pedia desculpa pelas patrióticas medidas de empobrecimento a que o país está destinado. A clareza das instituições, a ética republicana assegurará a nossa felicidade.

Hoje, mais uma vez a taxa de desemprego chegou muito perto dos onze por cento. Dramático? Não exageremos. O que pode um governo, eleito por um contrato eleitoral bem definido e respeitador da sua palavra, fazer perante essa ameaça externa? Sejamos realistas.

O desemprego alimenta-se a si próprio. Incapazes de se empregar, os desempregados alimentam outros desempregados. Ainda por cima o desempregado aspira a ter o seu trabalho, aquele que aprendeu e não um outro. E espera um subsídio demasiado próximo do seu vencimento. Uma maçada. Não compreendem as paixões maléficas de especuladores a quem nós pedimos uns euros para melhor produzir, para mais saber, para investir em actividades produtivas. Só impossibilidades.

Sejamos humildes e reconheçamos quem nos quer bem. Quem aspira a que voemos em carris transfigurados de futuro, nos caminhos acertados com o imaginário da grandeza de um País nascido para iluminar o Mundo. Reconheçamos o génio. Deixemos a espuma dos dias.

(1) Ricardo Araújo Pereira, Visão

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Poetas do mês de Maio (II)

Poetas do mês de Maio (I)

O Livro - Constança (4ºA)


Um livro é uma inspiração, pois dá-nos imenso prazer. Eu quando estou a ler um livro sinto-me nas nuvens, pois observo versos tão bonitos, tão pessoais.

O livro é uma fonte de energia. Eu leio um livro e ele fica meu amigo.

Ele é a pessoa que nos segue, ele é o mundo cheio de aventuras, imaginação e divertimento. O livro para mim é humano, amigo, e eu não quero que ele desapareça, pois é muito importante para a humanidade.

Imagem, Jeannette Woitzik, Libre

domingo, 16 de maio de 2010

Zhu Xiao-Mei O Rio e o Seu Segredo

«Caminho pelas ruas de Zhangjiako.

Como muitas vezes antes, na minha vida, quis voltar atrás para encontrar a energia para seguir em frente. Zhangjiako, pensava eu, dar-me-ia coragem. Claro que a vida me trouxe muito. Mas também me quebrou, porque me levou a não gostar de mim, a duvidar incessantemente, doentiamente.

Com o tempo, sinto cada vez mais ao meu lado a presença de Bach e de Lao-Tzu. Ajudaram-me a ultrapassar as provações do passado, e ajudar-me-ão ainda a enfrentar as que me esperam, porque me parece que o mais difícil ainda está por vir: encontrar finalmente a liberdade interior. (...)

À noite, tenho dúvidas, tenho medo dos outros, de mim, e sinto com violência a minha impotência, a minha incapacidade para atingir a perfeição. Mas, de manhã, sei que ele está ali, na sala ao lado, à minha espera. É uma promessa de felicidade sempre constante. O meu piano.

Olho para o céu de Zhangjiako. E ouço a minha avó a contar-me

- Foi na noite em que nasceste...» (1)

(Um retrato indescrítivel de uma jovem que viveu esse pesadelo que foi a Revolução Cultural e nos dá, não só a violência sobre o indivíduo, a morte de qualquer intimidade com a consciência, mas sobretudo a forma corajosa de como com a Arte pôde sobreviver a esse pesadelo. Um relato verídico e fascinante de uma pianista, que com Mozart e Bach venceu os mais baixos princípios de um poder sem alma e virtude. A descobrir em qualquer livraria.)

(1) - Zhu Xiao-Mei, O Rio e o Seu Segredo

A «Revolução» Cultural

«A noite vai bem avançada. Dá-me um fósforo». (1)

Justamente há sessenta anos, iniciava-se uma das mais violentas formas de organização da sociedade no século XX. O Maioísmo, redundância de uma chamada revolução cultural aprisionou milhares de pessoas em condições onde a sua dignidade humana não cabia.

Caminho feito onde supostamente os operários e os trabalhadores reconstruiriam uma ordem justa de um novo País, foi uma forma mais que no século XX, se revestiu o autoritarismo desumano perante o indivíduo. Aplicação irracional da vontade um chefe e de uma nomenklatura conduziu milhares a uma vida sem horizonte e sem direito à vida.

Em muitas latitudes se confundiu a dinidade humana com essa palavra mítica, «revolução», onde mais não foi que a exploração mais baixa da humanidade. Não se repetindo a História, ela como memória deve-nos colocar de prudência para todas as formas onde o indivíduo deixa de ser a alma de uma Humanidade consciente da sua dignidade.

(1) Lu Yan, Melancolia

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Baltasar Garzón - Um Mundo Sem Medo

«Todos, querido Baltasar, estamos implicados no universo integrador dos direitos e obrigações humanos e temos a responsabilidade de conseguir que a situação mude. Deves ter definitivamente presente que a solidariedade é um valor moral que surge do princípio básico da igualdade entre os seres humanos e que se deve ultrapassar a situação de desigualdade real entre estes. Constitui, pois, uma atitude de oferecimento, de disposição e de entrega ao outro.

A solidariedade é, portanto, um compromisso político que dá sentido e realidade à luta pela dignidade do ser humano.

A cooperação humanitária e a ajuda internacional devem ser dirigidas para essa engrenagem económica e humanista na qual a defesa dos direitos humanos seja algo mais do que meros enunciados num papel ou numa norma.

Este é o futuro de um mundo sem medo e em paz, que recupere definitivamente a própria dignidade dos milhões de vítimas massacradas e esquecidas.»

(No dia em que Baltasar Garzón sai da Audiência Nacional, um livro que nos dá os passos para criar um mundo mais justo, empenhado na Justiça, na Solidariedade com a dignidade Humana. Um livro fascinante sobre como a vontade de espírito nos daria outros horizontes, contra a corrupção e o terrorismo. Um livro em forma de carta a um filho, que é, para nós a luta por uma causa nobre. A de reconhecer o esquecimento e lutar pela sentido da Justiça nas sociedades contemporâneas.)

In Memoriam - Saldanha Sanches


A memória dos dias leva-nos a destacar uma figura que respeitávamos pela sua dimensão cívica, pela participação nas ideias que devem servir a acção quotidiana, para que o acto público seja efectivamente nobre.

Fiscalista, professor de direito, resistente no Estado Novo à acção de um País fechado ouvimo-lo muitas vezes denunciar aquilo que tem sido o presente perdido num País adiado na esperança. Ouvimo-lo muitas vezes falar contra a corrupção dos interesses, a falta de rigor financeiro, a desonestidade intelectual de tantas medidas de um Estado tecnocrático.

Se numa vida se perde toda a humanidade, num País em que a acção política não tem ideias, vivendo de um discurso formal sem espírito, a despedida da vida de um homem como Saldanha Sanches é sempre uma imensa perda. A falta de humanismo no espaço público deixa-nos mais sós no difícil real que é o Portugal contemporâneo. Uma lembrança de agradecimento ao seu espírito vivo.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

...


«A situação alterou-se nos últimos quinze dias». (1)

Vivemos entre momentos místicos de grande alcance mediático, mas de pouca transformação para o nosso horizonte quotidiano. Entre a vitória do SLB e a visita do Papa recebemos com incredulidade o anúncio fraterno, consciente e inadiável de que um conjunto formoso de taxas, impostos e comissões são devidas ao Estado. Mais uma vez.

Anunciam-se procedimentos ferozes na criação de receita, mas raras informações sobre a despesa, como vai ser controlada. E tudo isto para impor um Estado que asfixia a sociedade, não compreende o mundo em que vive, as relações económicas que o suportam. Um Estado alimentado por partidos que desconhecem a sua função na Democracia.

A Democracia implica o respeito pela palavra, pelo contrato eleitoral, pelas instituições. A Democracia implica a existência de cidadãos, não de crianças que não sabem pensar e por isso dispensadas de respeito. A Democracia implica uma comunidade onde nos podemos, devemos indignar contra a incompetência da gestão do domínio público.

O País, na pessoa dos partidos do governo não compreendeu que o mais importante é o trabalho, a poupança, não o despesimo e o crédito para construir o que não importa e o que não se pode ter. A economia tem de ser construída pelas empresas em concorrência, não pelo Estado. Os governos são eleitos para governar, não para criar dependências de consultadorias onde milhões se desperdiçam nos interesses de uma minoria. Um país não pode viver acima da riqueza que é capaz de criar.

Os partidos que governam não esclarecem que a Europa não existe. Apenas os interesses do eixo franco-alemão. Os partidos não compreenderam que salários baixos e dívida pública explosiva não garantiam qualquer futuro. A entrada na União Europeia impunha critérios de organização que um País julgado predestinado pela História não soube aplicar.

As medidas agora decretadas, prenúncio de um difícil presente, não mereceram um comentário do senhor Presidente da República. Perante os fenómenos místicos há que ficar em stand by. Tudo é decretado por algumas figuras sem a participação do Parlamento, como se ele não fosse a sede da soberania.

Continuamos as mesmas criancinhas, sem verdadeira cidadania, sem um Estado que não sabe ser a medida da ordem das coisas. Uma democracia pouco real onde a igualdade é uma ilusão, fruto desse trabalho que o Salazarismo tão bem projectou e que os governos sucessivamente não sabem reconstruir num projecto de decência colectiva.

(1) (Primeiro- Ministro de Portugal, Conferência de Imprensa 13 de Maio de 2010)

terça-feira, 11 de maio de 2010

No Reino das Pequenas Maravilhas


Small Wonderland from Graham Cross on Vimeo.
(Grahman Cross realizou uma pequena, mas encantada animação, com base nos desenhos de Keitaro Suhigara, para a sua primeira exposição em Londres, na Bodhi Gallery
Fonte: http://www.vimeo.com)

Aventuras e Mistérios...


«O Grande Livro do Egipto era realmente grande! Aliás, era enorme, pesado, de páginas velhas e amarelecidas com o tempo, mas ricas de cor e de particularidades sobre aquele país fértil de aventuras e mistérios que Ana adoraria conhecer.

Além disso tinha sido escrito de uma forma assombrosa, qualquer coisa entre o real e o fantasmagórico. Ana interrogava-se se as histórias e descrições que a princípio julgara pertencerem a um mundo puro de ficção, eram verdadeiras ou inventadas.

Mas talvez fosse precisamente aquela incerteza, aquele passear-se pelo limiar entre a verdade e a fábula que a mantinham imóvel, sentada na cama, de olhos esbugalhados e assentes nas letras gordas e assustadoras do livro, onde desenhos fantásticos apareciam aqui e além.

As histórias falavam de faraós, múmias, templos, pirâmides e outras construções estupendas, de ambiciosos exploradores em busca da descoberta do século, de salteadores desejando riquezas e de tantos grupos de defensores do património nacional e dos cultos e rituais antigos que insistiam em manter longe da cobiça estrangeira.»
(Livro recentemente adquirido para a Biblioteca da Escola sede do Agrupamento e por onde podemos conhecer em linguagem muito cativante os episódios da descoberta e do mistério entre locais tão fascinantes como o Cairo, a mesquita de Medina ou a cidade de Petra. Integrado no Plano Nacional de Leitura e da autoria de Mafalda Coutinho é um livro a descobrir.)

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Parabéns Mr. Bono

João Villaret - A Magia da Palavra

Nasceu em Lisboa, a dez de Maio de 1913, com o nome de João Henrique Pereira Villaret. Cresceu nos tumultuosos tempos da 1ª República. Estudou no Conservatório Nacional, foi actor de cinema, integrou grupos teatrais, mas foi sobretudo um artesão da palavra.

Declamou poesia para o grande público, tendo a televisão e o registo em disco deixado uma imagem da sua imensa genialidade. Num país cinzento, foi com Solnado uma das figuas capazes de sugerir imagens de transformação. Se Solnado o fez pelo riso, Villaret tinha também uma doçura e uma grandeza nos gestos e nas palavras, que deram tons novos à poesia de Pessoa, de Camões, de Florbela Espanca, entre muitos outros.

Villaret é um exemplo porque muitas das suas declamações são insuperáveis. Nem Mário Viegas soube ultrapassar a tonalidade da voz, a expressão de contrastes que ele pôs na Tabacaria de Pessoa. Contador de histórias, o seu exemplo é ainda maior pelo exemplo moral. Não são muitos os que usam as suas capacidades para o engrandecimento cultural e humano do País onde nasceram. Aqui fica um exemplo eterno da sua graça, num poema de José Régio.

Memória dos Livros

«As chamas cor de laranja acenavam à multidão enquanto o papel e as letras se dissolviam no seu interior. Palavras incendiadas eram arrancadas às suas frases.

Do outro lado para lá da neblina do calor, era impossível verem-se as camisas castanhas e as suásticas a darem-se as mãos. Não se viam pessoas. Apenas fardas e símbolos.

Lá em cima os pássaros davam voltas.

Descreviam círculos, atraídos pelo brilho... até se aproximarem demasiado do calor. Ou seria dos humanos? O calor, seguramente, não era nada.» (1)

(Não foi assim há tanto tempo, em que num dos Países, expoente da civilização ocidental, se destruiram livros, como se a palavra impressa impedisse qualquer construção sólida do futuro, como se queimando um livro se apagasse a força das suas ideias, como se elas assim já não existissem. Foi em Bücherverbrennung, expoente de um ódio que se viraria para as pessoas, para a sua dignidade humana. Por mais que estudemos será sempre difícil compreender essa doença do espírito que foi o Nazismo. Poucas vezes a História e os seus processos de estudo paraceram tão incapazes de compreender a loucura como aqui).

(1) Markus Zusak, A Menina que Roubava Livros

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Pai, eu sei que do outro lado da noite
há uma estrela iluminada
que vai direita ao país dos sonhos,
dos oásis e do brilho das estrelas.
Nessa estrada não cabem
nem a tristeza, nem o cansaço.
Amanhã vou acordar-te cedo
e quero que venhas comigo.
Na primeira curva
a seguir ao arvoredo,
depois das casas brancas,
é que fica o começo da estrada.
Não te demores, Pai,
que eu levo na festa dos olhos
a corola desse mês
chamado Abril
que tem perfume de onda,
de alfazema e erva doce
e a claridade dos sonhos
quando acordam em nós
como as canções de roda
da alegria dos meninos.

José Jorge Letria, Viagem à Flor de um Mês
Imagem, Beatriz Tetamanzi, A Cidade do Arco Íris

O Autor do Mês na Biblioteca - José J Letria

O autor do mês na Biblioteca, nasceu em Lisboa a oito de Julho de 1951 e tem sido durante a sua vida, escritor e jornalista.

Frequentou o Curso de Direito da Universidade de Lisboa e participou em diferentes projectos jornalísticos como o Jornal de Lisboa, O jornal de Notícias ou o Jornal de Letras.

Tem uma obra extensa virada para o público infantil e juvenil, onde podemos destacar alguns dos seus títulos mais significativos:

- O Homem que Tinha Uma Árvore na Cabeça;

- Galileu à Luz de uma Estrela;

- O Dia em que o Homem Beijou a Lua;

- O Alfabeto dos Países;

Uma boa parte da sua obra tem sido publicada em diferentes países.

Recebeu diferentes prémios pela sua obra, nomeadamente, Prémio Gulbenkian, Prémio Garrett, Prémio Ferreira de Castro de Literatura Infantil , Prémio Eça de Queirós-Município de Lisboa, entre muitos outros.

A obra de José Jorge Letria tem abordado diferentes tipos de texto, como o conto, a poesia e o teatro. Pode-se afirmar que é a literatura para a infância e jovens que mais tem caracterização a sua obra como escritor.

Caminhos de Leitura

A Biblioteca Municipal de Pombal recebe neste fim-de-semana o VII Encontro de Literatura Infantil, onde estarão presentes ilustradores, promotores da leitura ao nível da Península Ibérica. Ao lado desta iniciativa e a decorrer desde o dia 4 de Maio e até ao próximo dia dez, uma Feira do Livro, que integra um ciclo de cinema, espectáculos variados para crianças, oficinas de leitura e escrita e encontros com escritores e ilustardores de livros infantis.

Para conhecer em detalhe as diferentes iniciativas deste Encontro e outras Actividades dinamizadas pela Biblioteca Municipal de Pombal, fica aqui o link.

terça-feira, 4 de maio de 2010

A Liberdade de Imprensa

«A ideia de dignidade individual adquiriu um novo significado pelo facto de a informação se ter tornado mais acessível na sequência da invenção da imprensa». (1)

A Liberdade de imprensa (dia que se comemorou ontem) devolve a cada um de nós a importância da informação nas sociedades contemporâneas, onde o pensamento, as ideias se pensam como o principal motor de organizar a sociedade e das escolhas feitas.

Associada à Democracia, a liberdade de imprensa é um dos elementos da sociedade ocidental que em alguns países souberam caminhar para a defesa do valor da liberdade individual, como suporte da legitimidade dos que governam. Evidentemente que o uso da razão, condição para o exercício da liberdade é limitado de imensas formas. A Democracia não é um estado natural do homem e das sociedades mais desenvolvidas. Ela carece de um trabalho profundo intimamente ligado à liberdade de informação.

Quando o sistema político dilui a capacidade dos cidadãos em formular opiniões por acções dominadas pelos factores económicos ou pela simples distorção dos factos a Democracia torna-se meramente formal. Em último caso é a própria legitimidade dos que governam que carece de fundamento.

O papel de uma imprensa independente do poder político, com capacidade financeira, interessada em ajudar a criar uma opinião pública é uma das bases de uma real Democracia. Jornalistas credíveis, cuja palavra é um recurso de fundamentação no espaço público, é uma das garantias da liberdade individual. Há ainda perigos para a escrita livre?

É esta pergunta que a exposição, A Liberdade é um Risco procura responder. Não só nos Países onde a liberdade de opinião é uma ameaça à vida, mas também nas sociedades ocidentais, onde o espaço público é fágil. A Liberdade de Imprensa remete-nos em última instância para a leitura e para a escrita. Mostrando-nos como os recursos tecnológicos, sem uma massa crítica de ideias se esvazia em silêncios ameaçadores.

(1) AL Gore, O Ataque à Razão
Imagem, in http://notasaocafe.wordpress.com