quarta-feira, 30 de março de 2011

Memória de Vincent

(No nascimento de Vicent, a beleza simples da criatividade, em pinceladas que nos dão a apreensão do real, em tons vivos de genialidade.)




segunda-feira, 21 de março de 2011

Anunciando a Primavera

Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
Duma manhã futura

Depois do Inverno, morte figurada,
A primavera, uma assunção de flores.
A vida
Renascida
E celebrada
Num festival de pétalas e cores.

Olhos postos na terra, tu virás
no ritmo da própria primavera,
e como as flores e os animais
abrirás as mãos de quem te espera.


"Flores", "Primavera", "Glória" de Sophia; Miguel Torga e Eugénio de Andrade

Imagem de Ana Isabel Valfigueira

sexta-feira, 18 de março de 2011

Projecto Tsunami

Chama-se Projecto Tsunami e é uma resposta pela arte, difundido pelas redes sociais para construir desenhos sobre o terrível tsunami que abalou há uma semana o Japão. Agregado pela comunidade CFSL.net pretende que um conjunto de ilustradores dêem a sua visão sobre o terrível momento de destruição. Os desenhos serão vendidos e leiloados, de modo ajudar a reconstrução da vida.

domingo, 13 de março de 2011

Uma esperança

Ontem na Praça dos Aliados, no Porto, como em muitas cidades respirou-se o calor da protesto contra a construção de dias onde se ameaça a liberdade individual de pessoas intercaladas em várias gerações. Foi gratificante para os que participaram num movimento contra a apatia instalada e uma demonstração que ainda há esperança. E foi igualmente para os que não foram pelo exemplo que receberam.

Haverá sempre horizonte de possibilidades quando um povo decidir sair à rua e mostrar a sua vontade, quando se confirmar que quem governa nada percebe da dinâmica social e é preciso lutar contra o aproveitamento que uma tecnocracia dividida entre Bruxelas e São Bento faz da esperança e dos direitos individuais de cada um.

Foi um primeiro sinal de que é preciso dignidade no espaço público da governação. A governação só pode ser aceite quando transpira de um contrato representativo dos cidadãos. Aos que ficaram presos na arqueologia do absolutismo mental e institucional é preciso com insistência reunir pela voz e pela acção pacífica a demonstração do seu erro. Precisamos lutar por essa clarividência contra os que persistem ser personagens do museu da História.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Autor do Mês - Eugénio

Era uma andorinha branca

que me batia à janela

e contente anunciava

que chegava a primavera,

ou era eu que sonhava?

Eugénio de Andrade, "Andorinha", in Aquela nuvem e outras

sábado, 5 de março de 2011

terça-feira, 1 de março de 2011

Memória de Vergílio Ferreira


Há quinze anos que deixou de trabalhar as palavras como um artesão, por onde romanceou a nossa existência que em tantos momentos se cerca da solidão e da interrogação do eu, num universo esquecido a uma ideia de protecção maior.

Escreveu alguns dos mais belos textos sobre a condição humana, os limites do espiritual e o corpo que nos embeleza os dias, os sonhos de conquista e a respiração. Foi um escritor de dimensão universal e textos como Manhã Submersa, Aparição ou Em Nome da Terra são livros a recuperar pela vastidão dos horizontes com que humanamente nos confrontamos na nossa individualidade. O excerto de Manhã Submersa, um livro marcante na vida de gerações pelas dúvidas com que confrontou o cinzentismo do real:

"(...) o peso da dor nada tem que ver com a qualidade da dor. A dor é o que se sente. Nada mais. Desisto definitivamente de me iludir com a minha força de adulto sobre o peso de uma amargura infantil. Exactamente porque toda a vida que tive sempre se me representa investida da importância que em cada momento teve. Como se eu jamais tivesse envelhecido. (...)

(...) Eu vivia, de resto, agora, e cada vez mais, da minha imaginação. E foi por isso a partir de então que eu descobri a violência da realidade. Nada era como eu tinha fantasiado e não sabia porquê. Parecia-me que havia sempre outras coisas à minha volta que eu não supunha, e que essas coisas tinham sempre mais força do que eu julgava. Assim, a minha pessoa e tudo aquilo que eu escolhera para mim não tinham sobre o mais a importância que eu lhes dera. Chegado à realidade, muita coisa erguia a voz por sobre mim e me esquecia. (...)

(...) Quando algum de nós se afastava para dentro de si próprio, logo a vigilância alarmada dos prefeitos o trazia de rastos cá para fora. Os superiores sabiam que, à pressão exterior, cada um de nós podia refugiar-se no mais fundo de si. Como sabiam também que a descoberta de nós próprios era a descoberta maravilhosa de uma força inesperada. Nenhuns sonhos se negavam ao apelo da nossa sorte, aí na nossa íntima liberdade. Por isso nos expulsavam de lá. Mas, uma vez postos na rua, havia ainda o receio de que as nossas liberdades comunicassem de uns para os outros e ficassem por isso ainda mais fortes. E assim nos obrigavam a integrar-nos numa solidariedade geométrica, ruidosa e exterior como de ladrilhos."


Vergílio Ferreira, Manhã Submersa