segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Até Janeiro



A Personalidade do Ano


A revista Time e os seus leitores escolheram Julien Assenge como a personalidade do ano. Acima das dúvidas que se instalam sobre a sua condenação em actividades da sua vida privada, há neste caso dimensões que importa destacar.

A tecnologia, como suporte de informação evidencia o poder da web em tornar acessível e transparente factos comprovados de acções cometidas por governantes como sendo eticamente inaceitáveis.

Dá-nos a confirmação que o modelo político do Ocidente e as suas instituições estão mergulhadas numa decadência que se justifica e afirma apenas pelo valor estratégico da economia e do serviço que promove a minorias. O serviço à causa pública é no essencial uma miragem. A tecnologia é uma ferramenta, um instrumento que transforma a informação. A tecnologia não encerra apenas formatos, trabalha os símbolos da informação.

As elites, as mais atrapalhadas virão dizer que não é bom critério a transparência. Que a cidadania é um princípio belo, certamente, mas apenas na segurança dos que guardam os palácios e os seus privilégios. Acontece que o fundador da Wikileaks é um símbolo pela força com que demonstra o que os governos ainda não perceberam. Uma ordem mundial satisfatória não é compatível com aparências de verdade.

O Valor das Humanidades


"Tout ceci, je crois, montre bien qu'il y a là quelque chose de profond dans la pensée greque, ou dans l'art grec: ce besoin d'annoncer la fin, de laisser pressentir constamment la fin" (1)

Por estes dias finais deste ano lembramos a memória de quem há horas deixou de nos ensinar de forma tão directa o que foi a aventura grega e o que ela representou para a formação da Humanidade. A originalidade da cultura grega, a explosão do seu pensamento em tantos domínios para a formação de uma educação que destaca o valor da liberdade e do indíviduo foram expressos por Jacqueline Romilly em facetas tão diversas, como a língua, a lenda, a arqueologia dos materiais.

Com ela recordamos esse domínio afastado do estudo nas escolas e universidades, que é o dos Estudos Clássicos, suporte das Humanidades. Vale muito a pena destacar outra professora ilustre, portuguesa, Maria Helena da Rocha Pereira, que na universidade portuguesa deu um grande contributo para este domínio do saber.

No actual quadro de desastre das instituições europeias em que se navega sem valores, importa destacar aos esquecidos que uma sociedade não se constrói apenas pelo valor utilitário mais imediato. Que existe um pensamento, uma capacidade para reflectir valores, para questionar a realidade e ter a possibilidade de criar ideias. Aos que acham a filosofia, o latim, a história, a cultura clássica como banalidades, arquivos longínquos da modernidade, a crise profunda que se vive na Europa e em Portugal é em muito consequência da falta de estudo do que é a memória da civilização europeia.

(1) Jacqueline Romilly Ne me dis pas comment cela finit

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Leituras na Biblioteca

"Era uma vez uma vez uma casa pintada de amarelo com um jardim em volta. No jardim havia tílias, bétulas, um cedro muito antigo, uma cerejeira e dois plátanos. Era debaixo do cedro que Joana brincava. Com musgo e ervas e paus fazia muitas casas pequenas encostadas ao grande tronco escuro. Depois imaginava os anõezinhos que, se existissem, poderiam morar naquelas casas. E fazia uma casa maior e mais complicada para o rei dos anões."


E Joana tinha muita pena de não saber brincar com os outros meninos. Só sabia estar sozinha. Mas um dia encontrou um amigo. Foi numa manhã de Outubro. (...)A luz da manhã rodeava o jardim: tudo estava cheio de paz e de frescura. Às vezes do alto de uma tília caía uma folha amarela que dava voltas no ar. (...) e daí em diante todas as manhãs o rapazinho passava pela rua. Joana esperava-o empoleirada em cima do muro..."

Sophia, A Noite de Natal
Desenhos - 2º D

Carlos Pinto Coelho (in Memorian)

Entre os livros e as actividades de fim de período tem faltado tempo para aqui deixar algumas ideias que os dias têm deixado num clima que não é de grande entusiasmo. O fim do dia foi marcado pelo fim físico de um homem que teve nos media alguma importância. Aquela que o País lhe soube reconhecer e apesar de sermos culturalmente pouco sólidos ele desempenhou um papel que deve ser reconhecido.

Nas alturas de circunstância costuma-se fazer as notas biográficas. Deixemos isso para outros. Era jornalista. Revelava um imenso humanismo nas suas declarações sobre os outros, os livros, as ideias, a arte, a cultura... Teve um programa que deu aos portugueses o contacto com esse mundo que parece cada vez mais raro e distante. Falava dos criadores com paixão, com fascínio pela palavra, pelo traço, pela cor redescoberta.

A sua importância, relativa ao período do Acontece faz-nos reflectir como a evolução do País é uma tragédia, é uma incapacidade de projectar ideias, de criar soluções. Sem cultura não existe massa crítica, não existe qualquer fermento para enquadrar uma organização social que é cada vez mais um apêndice de um poder político que se vê a si próprio como o grande inspirador do pensamento dos outros. A distância que nos separa de um País, é muito esta. A desvinculação às ideias. No dia em que nos despedimos de Carlos Pinto Coelho valia a pena pensar um pouco nisso. É por aqui que se tem construído uma aparência do real com figuras janotas, mas pouco consistentes.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

No dia da Declaração dos Direitos do Homem


O Ódio Corrói a Consciência e a Sabedoria das pessoas

"Eu não tenho inimigos, nem odeio ninguém. Nem os polícias que me vigiaram, prenderam e me interrogaram, nem os advogados que me processaram, nem os juízes que me condenaram, são meus inimigos. Embora eu não possa aceitar a vigilância, prisão, processos ou condenação, respeito as suas profissões e as suas personalidades. O ódio corrói a consciência e sabedoria das pessoas; a mentalidade de hostilidade pode envenenar o espírito de uma nação, incitar a uma vida violenta e a conflitos de morte, destrói a tolerância e humanidade de uma sociedade, e bloqueia o progresso de uma nação na senda da liberdade e democracia.

Contudo, eu tenho esperança de conseguir transcender as minhas vicissitudes pessoais na compreensão do desenvolvimento do estado e de mudanças na sociedade, e de denunciar a hostilidade do regime com a melhor das intenções, e de acabar com o ódio através do amor.
Eu não me sinto culpado por seguir os meus direitos constitucionais e o direito de liberdade de expressão, e por exercer em pleno a minha responsabilidade social como cidadão chinês. Mesmo que esteja acusado por causa disso, não tenho queixas.
A reforma política da China deve ser gradual, pacífica, ordenada e controlável, e deve ser interactiva, desde cima a baixo e de baixo a cima. Desta forma terá o custo mais baixo e conduzirá aos resultados mais eficazes. Eu conheço os princípios básicos das mudanças políticas, e que mudanças sociais controladas e feitas de forma ordeira são melhores que aquelas que são feitas de forma caótica e sem qualquer controle. Por isso oponho-me a sistemas de governo que sejam ditaduras ou monopólios. Isto não é incitar à subversão do poder do Estado. Oposição não é equivalente a subversão."


No dia em que passam sessenta e dois anos sobre a declaração dos Direitos Humanos, manifestação mais marcante da ausência de humanidade nos dias que vivemos seria difícil de encontrar. No silêncio vazio, ensurdecedor da cadeira de Liu Xiaobo em Oslo, vemos como aquilo que nos faz humanos está ainda muito longe do essencial em muitas latitudes.

Liv Ulman leu um discurso de quem, mesmo preso tem uma ideia sábia de contruir o desenvolvimento com valores de dignidade humana. É triste e desconsolador observarmos este desprezo pelo valor da palavra, da ideia, da atitude construtiva. É ainda mais porque por cá, pelo mundo ocidental ainda é possível encontrar vozes que acham isto natural.

Os indignados por qualquer direito a ser machucado no campo social acham que este não é um episódio grave, nem incomodativo da consciência. É de facto possível ser-se transportado no futuro e viver na arqueologia do pensamento mágico. A crise económica e moral do Ocidente tornou-se refém de uma economia de sucesso, dos créditos dos Estados onde a liberdade e a responsabilidade da cidadania, que a Declaração dos Direitos do Homem simbolizam, se manifesta uma poeira dos dias.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Há já trinta anos...

"My role in society, as any artist's or poet's role, is to try and expresse what we all feel. Not to tell the people how to feel. Not as a preacher, not as a leader, but as a reflection of us all."

Crescemos com ele e assim aprendemos a apagar as impossibilidades escritas nos manuais do conformismo. Descobrimos palavras e sons novos onde todas as cores eram possíveis apenas pela ideia de reflectir o sonho, o jogo mental de exercitar a imaginação e a inteligência. Com assombro conhecemos linguagens novas, possibilidades maiores que pareciam conquistar o mundo.

Percebemos que o mundo não era o conto justo e encantado de fadas. Mas imaginámos tardes de chuva a comer chocolates onde por campos de morangos, com a música, com a poesia, embalados na palavra se viviam avenidas de sol mais brilhante.

É este o legado de John Lennon, o de ter connosco praticado eternos "mind games" onde a imaginação permitia celebrar um campo de oportunidades onde a paz, o amor e a dignidade dos valores nos permitia conquistadores dos dias. É verdade que no caminho se perdeu tanto que a sua ausência há já trinta anos nos faz interrogar o que ele nos diria hoje. Positivamente, reflexivamente sempre o espelho do que somos em cada respiração

Imagem, in http://www.lastfm.pt


terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Com um livro posso


Com um livro podemos ler, imaginar, brincar, saltar e correr. Com os livros entramos nos textos encantados e cheios de felicidade.

Com um livro podemos aprender muito. Também podemos ver imagens muito bonitas. Podemos viajar e sonhar.

Com um livro podemos ler, aprender, ouvir e fazer crescer a nossa imaginação. Os livros são em prosa ou em verso. Todos os livros são divertidos!

Gonçalo / Francisca / Ana Beatriz - 4º A

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Com um livro posso...


Com os livros posso imaginar, sonhar, adormecer, aprender a amar a natureza. Com os livros posso fazer muita coisa.

Com os livros nós aprendemos palavras novas e também temos lições de vida.

Com os livros aprende-se a ler, a escrever e a ficar com muitas ideias.

Daniela / Inês / Tiago - 3º B

sábado, 4 de dezembro de 2010

Memória de Francisco Sá Carneiro


Existem pessoas que passam por nós e emergem como uma onda que pretende marcar na praia sossegada e prevível dos dias algo de diferente, qualquer ideia de mudança, uma paixão pelo confronto com a realidade estática.

Existem pessoas que parecem ter uma áurea significativa para impulsionar os movimentos de mudança, acreditando quase cegamente nas suas convicções, como se elas assegurassem sempre um ganho em qualquer contexto, apesar das dificuldades.

Existem pessoas que parecem ter uma dádiva de conquista pelo seu carisma, pela luta intransigente, pela ruptura, sem concessões por uma quietude mais calma. Ruptura alimentada por profundas convicções, por uma ideia sustentada da sociedade, das oportunidades e da vida que se alimenta apenas de si própria.

Existem pessoas que emergem como alimento de uma onda maior que projectaram, arriscando as convicções no seu objectivo de alimentar a confiança e o entusiasmo.

Apesar de ainda só terem passado trinta anos, o que em História é uma ninharia, não é difícil entregar a Sá Carneiro esse papel com que arriscou os dias. O que teria sido nunca o saberemos. Foi uma figura de primeiro plano na conjuntura dos anos setenta do século passado. No adormecimento de valores que o País vive há duas décadas, Sá Carneiro deixou-nos a interrogação de sabermos até onde iria a sua convicção pelo afrontamento, pela criação de rupturas para algo diferenciado nos dias.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Outono dos Livros


A Biblioteca Nacional promove de quatro a onze de Dezembro, de segunda a sexta, entre as 10h00 e as 19h00 e aos sábados até às 17h00 uma feira de livros das suas edições. É possível encontrar livros dos mais variados temas. Da Literatura, à Ciência e às Artes, catálogos de exposições, bibliografias, guias e inventários. Os preços são muito convidativos com descontos até 80% nos livros publicados até 2007 e com 20% nos anos posteriores. A iniciativa contempla um conjunto de edições da Inapa e da Babel.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Pessoa entre pessoas

"Ainda assim, sou alguém.
Sou o Descobridor da Natureza (...)
Trago ao Universo um novo Universo
Porque trago ao Universo ele-próprio." (1)

Já lhe dedicámos alguns textos e sobre ele escreve-se diariamente em continentes de emoções e latitudes diferenciadas. A sua biografia, da qual já aqui demos conta em breves palavras é só uma impressão, um gesto de uma genialidade complexa, universal e original nas formas e muito rica de ideias.

Foi com ele que atingimos a universalidade dentro do particular Portugal, onde sabemos distinguir a palavra, a dúvida e o sonho. Inventou num mar de aparente solidão, uma nova forma de apresentar as palavras, de desenhar ideias de futuro construindo uma língua, uma literatura.

Ele somos todos nós. Aqueles que ele inventou nos quotidianos onde tantos seres particulares ganham a sua originalidade, a sua universal humanidade. Se há poeta, se há escritor, se há literatura ele é tudo isso. É a demonstração que um país é a sua cultura, a sua língua, as suas pessoas, a sua individualidade...

É o nosso maior poeta, o filósofo das partidas esquecidas e dos sonhos de conquista do infinito universo. Chama-se Fernando Pessoa, andou por aqui durante os milénios dos seus sonhos e faz hoje setenta e cinco anos que adormeceu. Continua a incomodar o real tão feito de aparentes compromissos de verdade e imaginação.
(1) Alberto Caeiro, "XLVI", Poesias - Heterónimos

Com um livro posso...

Com um livro posso aprender, ir ao mundo encantado, dar asas à imaginação e sonhar. Posso viver aventuras e brincar. Ter um livro é divertido pois podemos fazer tudo aquilo que sonharmos...

Com um livro posso viver muitas aventuras, conhecer novos amigos, entrar onde nunca entrei, conhecer coisas estranhas e ter fantasia.

Com um livro posso viajar para a fantasia e imaginar que estamos dentro do livro. Um livro faz ter imaginação e se entrarmos nesse mundo de imaginação podemos passar um dia muito feliz.

Com um livro posso dar largas à imaginação, voar, aprender, escrever, imaginar...

(1) Erica Crespo; Sofia Castanho; Beatriz; Maria Salomé - (4º B)



Leituras


(Na Biblioteca Municipal da Batalha, para partilhar leituras e livros.)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Dia Nacional da Cultura Científica - Cartaz

Pelas razões evidentes só amanhã será possível dinamizar a actividade relativo ao Dia Nacional da Cultura Científica, que oficialmente se celebrou na passada quarta-feira.

Actividade - Dia Nacional da Cultura Científica

No Nascimento de Eça de Queiroz

"O Partido Nacional retomaria então o poder, e Alípio Abranhos que, agora, era Governo, Influência, Força, Lei, passaria a ser o deputado loquaz de uma oposição estéril, pois que ninguém acreditava que os Reformadores - tendo subido ao poder por um acaso, vissem esse acaso repetir-se.Os Reformadores eram pois, na frase clássica,«um partido sem futuro». O próximo ministério Nacional havia de colar-se às cadeiras do poder durante anos. E poderia, durante anos, Alípio Abranhos ver as suas faculdades, o seu génio, gastarem-se na retórica hostil e rancorosa da oposição? (...)

Estas considerações pesou-as bem Alípio Abranhos nessas horas da tarde em que passeava solitário na alameda de loureiros; e quando em princípios de Novembro voltou para Lisboa, tinha decidido, no segredo da sua alma, passar-se com as suas armas de eloquência e a sua bagagem de saber para o campo do inimigo. Ia fazer-se oposição! (...)

Mas havia entre os Reformadores e os Nacionais ideais opostos? Abandonava Alípio Abranhos ideias queridas, para ir, por interesses grosseiros, defender ideias detestadas? Não. As ideias que servia entre o Reformadores ia servi-las entre os Nacionais. (...) Em política, o que eram os Reformadores? Conservadores constitucionais. E os Nacionais? Idem. (...)

Não desejavam ambos a estrita aplicação da Constituição, só da Constituição, de toda a Constituição? - Desejavam-na ambos, ardentemente. (...) Não tinham ambos um nobre rancor aos princípios revolucionários? Um rancor nobilíssimo. E em questões de Instrução, de Imprensa, de Polícia, não tinham ambos as mesmas óptimas ideias? Absolutamente as mesmas. Não eram ambos patriotas? Fanaticamente. (...)

Passou pois para a oposição o nosso grande Alípio, e com que prodigiosa impressão esse passo foi recebido no país, di-lo a História Cosntitucional".

Eça de Queiroz, O Conde D' Abranhos, págs. 299-300


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Rómulo de Carvalho por António Gedeão

Eu queria que o amor estivesse realmente no
[ coração,
e também a Bondade,
e a Sinceridade,
e tudo, e tudo o mais, tudo estivesse realmente no
[coração.
Então poderia dizer-vos:
"Meus amados irmãs,
falo-vos do coração",
ou então:
"com o coração nas mãos."

Mas o meu coração é como o dos compêndios.
Tem duas válvulas (a tricúspida e a mitral)
e os seus compartimentos (duas aurículas e dois
[ventrículos).
O sangue ao circular contrai-os e distende-os
segundo a obrigação das leis dos movimentos.

Por vezes acontece
ver-se um homem, sem querer, som os lábios
[apertados.
e uma lâmina baça e agreste, que endurece
a luz dos olhos em bisel cortados.

Parece então que o coração estremece.
Mas não.
Sabe-se, e muito bem, com fundamento prático,
que esse vento que sopra e que ateia os incêndios,
é coisa do simpático.
Vem tudo nos compêndios.

Então, meninos!
Vamos à lição!
Em quantas partes se divide o coração?

António Gedeão, "Poema do Coração", in Poemas Escolhidos



(Lágrima de Preta e Pedra Filosofal - dois dos muitos poemas da nossa humanidade, dados por António Gedeão a todos nós).

Rómulo de Carvalho

Este também é um dia para destacar alguém que desempenhou na sociedade portuguesa um importante papel como homem de cultura, onde as ideias de generosidade, de humildade e de profunda sabedoria nos deixaram um legado de grande alcance.

Sim, há pessoas difíceis de substituir, pela dimensão que representaram no conhecimento que fizeram da ciência, da investigação em tão variados campos e como a difundiram a outros. Há pessoas que sabem pela poesia, na utilização das palavras denunciar não só as injustiças, mas a própria estupidez que tantas vezes cerca a humanidade. E fazê-lo com graça, com elegância, com inteligência.

Rómulo de Carvalho foi um professor de físico-química, um ilustrador de livros de história, um fotógrafo, um escritor, um investigador e um escritor. Foi ainda um importante poeta, de nome António Gedeão, no qual acendeu a palavra entre os conceitos biológicos e físicos da matéria e os da humanidade.

Foi essencialmente um homem que num tempo de obscurantismo nos trouxe o papel enriquecedor e transformador do saber. Ao dia 24 de Novembro, Dia Nacional da Cultura Científica associa-se esta grande figura das ciências e das artes portuguesas.

Imagens do Dia



A Terceira Noite:

Defender o Quadrado:

Jornal Mudar de Vida:

O Cachimbo de Magritte:
«Quem manda é quem paga»

(Alguns das ideias na Blogosfera sobre a greve deste dia)
Imagem, in Ladrões de bicicletas.blogspot.com

terça-feira, 23 de novembro de 2010

As Manhãs ausentes

"It was only one hour ago it was all so different then
So hard to move on Still loving what's gone" - Peter Gabriel - I Grieve

(Como caminhar nos espaços vazios, entre as manhãs de sorrisos de quem partiu tão abruptamente, quando ainda mal tinha começado a viver).

No octagésimo aniversário de Herberto Helder

Um poema cresce inseguramente (...)

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento (...)
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sortida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo (...)»

(Na celebração dos oitenta anos de um grande poeta, o maior deste século ainda tão novo e já tão velho, ou a miragem de perder um pouco a beleza no esforço humano em construir "as torrentes infindáveis de rosas". Natural da Madeira, de lá nos tem enviado as palavras de uma condição humana sempre interrogada e esquecida dos holofotes onde os gestos vãos enchem a virtualidade de um quotidiano sem brilho. Aquele que faz deste País, um território de sombras, onde a sabedoria dos poetas é irrelevante.

Herberto Helder, "Sobre um Poema", in Ofício Cantante

Novidades

Leituras na Biblioteca



"Era uma vez um trevo que nasceu diferente dos outros. A princípio era apenas uma pequena semente, igual a tantas outras, que começou lentamente a brotar da terra. Mas quando cresceu tornou-se logo evidente que não era como todos os outros trevos. Em vez de três folhinhas em forma de coração, ele tinha quatro."





(Gonçalo; Beatriz; Mafalda - 1ºA)

Do nascimento de um poeta

No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas

Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos

Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva

Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito

Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio

Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios

Isso foi antes
de aprender álgebra

José Tolentino Mendonça, «A Infância de Herberto Helder»
(No nascimento de Herberto Helder)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Leituras na BE

«Sophia continuou sempre a escrever histórias para crianças, mas também poemas e contos para adultos. Para ela, o mais importante era que as pessoas - tanto as crianças como as mais crescidas - soubessem ser justas e distinguissem o bem e o mal. Por isso, em tudo o que fazia procurava sempre combater a injustiça e a maldade de que alguns seres humanos infelizmente são capazes. (...)

Sophia sempre soube que o professor Cláudio tinha razão. Por isso nos deixou histórias tão encantadoras e belos poemas que guardamos na memória. Mas o seu reino não era apenas o da fantasia. Era uma mulher interessada pelo mundo que a rodeava e gostava muito de viajar. De todos os países, o que mais lhe agradava era a Grécia, porque admirava a cultura grega e a paisagem do mar Mediterrâneo, com as suas ilhas cheias de história.

Até ao fim da sua vida, Sophia continuou sempre a escrever, rodeada pela sua grande família, com netos que adoravam aquela avó um pouco distraída e cheia de histórias para lhes contar. Recebeu muitos prémios, condecorações e homenagens pelas obras que escreveu, mas ela não ligava a essas coisas. O que lhe dava mais prazer era a alegria que brilhava nos olhos das crianças quando abriam os seus livros e se encantavam com a magia das suas palavras.

Sophia morreu no dia 2 de Julho de 2004, aos oitenta e quatro anos, mas continua viva para todos os que lêem as suas histórias e os seus poemas. E sempre foi fiel à frase do seu bisavô dinamarquês:[ " A minha casa é o caminho do mar"]».

A Minha Primeira Sophia
Fernando Pinto do Amaral, Fernanda Fragateiro (ilustrações)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Mar de Sophia



«Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim»

Sophia, «Mar Sonoro», in Coral


(A voz de Bethânia com as palavras do mar, num disco especial sobre o universo único de Sophia.)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Entre os Dias

Quando nos aniquila o infortúnio

o que nos salva por um segundo

são as infímas aventuras

da atenção ou da memória:

o sabor de um fruto, o sabor da água,

esse rosto que um sonho nos devolve,

os primeiros jasmins de Novembro,

o anseio infinito da bússola,

um livro que julgávamos perdido,

o pulsar de um hexâmetro,

a breve chave que nos abre uma casa,

o cheiro de uma biblioteca ou do sândalo,

o nome antigo de uma rua,

as cores de um mapa,

uma etimologia imprevista,

a lisura da unha limada,

a data que prócuravamos,

contar as doze badaladas obscuras,

uma brusca dor física. (...)



Jorge Luís Borges in Obras Completas, Editorial Teorema, 1989
Imagem, in http://www.1x.com

A Existência do País

"O fraco rei faz fraca a forte gente(...)" (1)

Os dias apresentam-se difíceis, cada vez mais visíveis na incapacidade de ser algo verdadeiramente decente. Um País que gastou milhares a consagrar as instituições soberanas da causa republicana, mãe das causas sociais e políticas do progresso humano e dos direitos sociais está perante a sua figura com a lucidez de sombras.

Não é verdade que um País, um homem, uma sociedade integre, viva o seu tempo. As instituições são o cimento da coesão da sociedade e o sistema político, se verdadeiro, se íntegro para com a sua função de serviço público não pode ser o refúgio, a justificação dos que na estabilidade, na permanência tornam toda a comunidade apaticamente passiva de uma crise moral.

Sem memória da história, entregue a uma Europa de burocratas que pensavam ser possível criar uma federação de estados sem qualquer constrangimento, apenas com a benevolência financeira da Alemanha, o País está mergulhado numa crise moral, onde qualquer direito é negociável e qualquer atitude usurária do bem público uma fatalidade. Os últimos anos foram a preparação desta crise onde o poder executivo e toda a sua justificação foi feita «à custa da credibilidade das instituições».(2)

Vive-se em Portugal, na casa das instituições do estado com a solidez da guarda pretoriana. A soberania já não é um valor de credibilidade ou de justeza. É possível estabelecer um contrato eleitoral e fazer o seu contrário. Como pergunta Helena Matos, «pode um pequeno país, entre as limitações da geografia e os azares da História sobreviver à incerteza de uma conduta que confunde a verdade com a inverdade?».(2)

É na fronteira da indignação que a greve do próximo dia vinte e quatro nos conduz. A resposta sendo pessoal deve-nos fazer reflectir contra este pensamento mágico que nos adormece sem brilho, nem graça.

(1) Luís de Camões, Lusíadas (Canto III)
(2) Helena Matos, Público (18 de Novembro de 2010)