segunda-feira, 10 de maio de 2010

Parabéns Mr. Bono

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João Villaret - A Magia da Palavra

Nasceu em Lisboa, a dez de Maio de 1913, com o nome de João Henrique Pereira Villaret. Cresceu nos tumultuosos tempos da 1ª República. Estudou no Conservatório Nacional, foi actor de cinema, integrou grupos teatrais, mas foi sobretudo um artesão da palavra.

Declamou poesia para o grande público, tendo a televisão e o registo em disco deixado uma imagem da sua imensa genialidade. Num país cinzento, foi com Solnado uma das figuas capazes de sugerir imagens de transformação. Se Solnado o fez pelo riso, Villaret tinha também uma doçura e uma grandeza nos gestos e nas palavras, que deram tons novos à poesia de Pessoa, de Camões, de Florbela Espanca, entre muitos outros.

Villaret é um exemplo porque muitas das suas declamações são insuperáveis. Nem Mário Viegas soube ultrapassar a tonalidade da voz, a expressão de contrastes que ele pôs na Tabacaria de Pessoa. Contador de histórias, o seu exemplo é ainda maior pelo exemplo moral. Não são muitos os que usam as suas capacidades para o engrandecimento cultural e humano do País onde nasceram. Aqui fica um exemplo eterno da sua graça, num poema de José Régio.

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Memória dos Livros

«As chamas cor de laranja acenavam à multidão enquanto o papel e as letras se dissolviam no seu interior. Palavras incendiadas eram arrancadas às suas frases.

Do outro lado para lá da neblina do calor, era impossível verem-se as camisas castanhas e as suásticas a darem-se as mãos. Não se viam pessoas. Apenas fardas e símbolos.

Lá em cima os pássaros davam voltas.

Descreviam círculos, atraídos pelo brilho... até se aproximarem demasiado do calor. Ou seria dos humanos? O calor, seguramente, não era nada.» (1)

(Não foi assim há tanto tempo, em que num dos Países, expoente da civilização ocidental, se destruiram livros, como se a palavra impressa impedisse qualquer construção sólida do futuro, como se queimando um livro se apagasse a força das suas ideias, como se elas assim já não existissem. Foi em Bücherverbrennung, expoente de um ódio que se viraria para as pessoas, para a sua dignidade humana. Por mais que estudemos será sempre difícil compreender essa doença do espírito que foi o Nazismo. Poucas vezes a História e os seus processos de estudo paraceram tão incapazes de compreender a loucura como aqui).

(1) Markus Zusak, A Menina que Roubava Livros