terça-feira, 1 de março de 2011

Memória de Vergílio Ferreira


Há quinze anos que deixou de trabalhar as palavras como um artesão, por onde romanceou a nossa existência que em tantos momentos se cerca da solidão e da interrogação do eu, num universo esquecido a uma ideia de protecção maior.

Escreveu alguns dos mais belos textos sobre a condição humana, os limites do espiritual e o corpo que nos embeleza os dias, os sonhos de conquista e a respiração. Foi um escritor de dimensão universal e textos como Manhã Submersa, Aparição ou Em Nome da Terra são livros a recuperar pela vastidão dos horizontes com que humanamente nos confrontamos na nossa individualidade. O excerto de Manhã Submersa, um livro marcante na vida de gerações pelas dúvidas com que confrontou o cinzentismo do real:

"(...) o peso da dor nada tem que ver com a qualidade da dor. A dor é o que se sente. Nada mais. Desisto definitivamente de me iludir com a minha força de adulto sobre o peso de uma amargura infantil. Exactamente porque toda a vida que tive sempre se me representa investida da importância que em cada momento teve. Como se eu jamais tivesse envelhecido. (...)

(...) Eu vivia, de resto, agora, e cada vez mais, da minha imaginação. E foi por isso a partir de então que eu descobri a violência da realidade. Nada era como eu tinha fantasiado e não sabia porquê. Parecia-me que havia sempre outras coisas à minha volta que eu não supunha, e que essas coisas tinham sempre mais força do que eu julgava. Assim, a minha pessoa e tudo aquilo que eu escolhera para mim não tinham sobre o mais a importância que eu lhes dera. Chegado à realidade, muita coisa erguia a voz por sobre mim e me esquecia. (...)

(...) Quando algum de nós se afastava para dentro de si próprio, logo a vigilância alarmada dos prefeitos o trazia de rastos cá para fora. Os superiores sabiam que, à pressão exterior, cada um de nós podia refugiar-se no mais fundo de si. Como sabiam também que a descoberta de nós próprios era a descoberta maravilhosa de uma força inesperada. Nenhuns sonhos se negavam ao apelo da nossa sorte, aí na nossa íntima liberdade. Por isso nos expulsavam de lá. Mas, uma vez postos na rua, havia ainda o receio de que as nossas liberdades comunicassem de uns para os outros e ficassem por isso ainda mais fortes. E assim nos obrigavam a integrar-nos numa solidariedade geométrica, ruidosa e exterior como de ladrilhos."


Vergílio Ferreira, Manhã Submersa