sábado, 19 de dezembro de 2009

Sobre a Educação...


«Os professores são os responsáveis pelos problemas de indisciplina na sala de aula. (...) Boa parte dos conflitos resulta da incapacidade que o professor tem de ouvir os pontos de vista dos alunos. (...) Os professores não souberam adaptar-se às novas realidades.» (1)

Um Blogue de uma Biblioteca serve, também, para que se discutam ideias e se exerça um plano de cidadania. Quando partimos para este projecto e pela especificidade das escolas interessa-nos muito mais aquilo que nas palavras de Alice será o outro lado do espelho, onde se inventam imagens e sons de uma fantasia imaginada e vivida.

No entanto as questões relativas à educação também merecem uma palavra. E quem olha com espanto e assombro o real não pode ficar indiferente a palavras, que não sendo novas espelham uma ideologia velha, gasta que em diferentes palcos suporta o trágico estado da educação neste País.

Desde o século XIX, que os positivistas julgaram ser possível determinar o comportamento humano com a mesma cientificidade que uma raiz quadrada, pensando que seria possível criar as coordenadas da acção humana. A Psicologia seria assim o suporte desta compreensão total do homem. Acontece que a Psicologia não é uma Ciência Exacta, é justamente um suporte para organizar as acções e os comportamentos. Quem não compreende isto, torna-se vítima das certezas que quer vender sem nenhuma justificada credibilidade. Algumas perguntas.

Em que salas foram testadas as conclusões que permitem ao nosso psicólogo, sustentar que a indisciplina é a consequência da falta de oportunidade em expressar os seus pontos de vista? Todos os pontos de vista? À falta de educação, o desrespeito pelos outros, e não só ao professor, é um simples exprimir de ponto de vista? Aonde se fundamenta a ideia de que não há liberdade de expressão nas salas de aula?

Esta é uma perspectiva que nos tem naufragado, impedindo a valorização do esforço, da persistência, onde o conhecimento é minimizado, onde todas as abordagens têm de evitar as categorias abstractas do pensamento, numa palavra a facilidade e o divertimento. Assim se construiu um sistema educativo que reparte privilégios, na ilusão que são direitos universais, que reproduzem a falta do saber e impedem a evolução social.

E não foram os professores que não se adaptaram às mudanças. Foi a sociedade que não o conseguiu fazer, que não soube implicar a escola numa mudança. A escola não foi vista numa mudança porque alguns dos aspectos culturais que importava que participasse em transformar são considerados valores respeitados e reproduzidos. Como se pode educar para o valor estético se os media e principalmente a televisão apresentam o que todos conhecem. O que pode a palavra, o gesto, a cultura, a escola perante este desfilar de personagens em noites sem encanto?

E depois há os alunos, de que o senhor psicólogo simplesmente se esqueceu, o mais importante.
Os alunos transportam camadas de insegurança, medo, incertezas sobre um caminho que não sabem onde vai dar a Escola, o seu esforço, as suas possibilidades. Transportam cadernos, lápis, mas também desgostos, às vezes mais incompreensões que vontades. E muitas vezes não é fácil ao professor dislumbrar o caminho que vai da sabedoria, do conhecimento ao seu contrário, sobretudo numa dimensão de escola com demasiadas áreas, disciplinas e sobretudo horas. Alguém achará positivo e até humano, uma criança, ao nível de um 1º Ciclo ficar numa escola mais tempo que um operário numa fábrica? Faz isto sentido?

Existem demasiadas certezas, modas que uns tantos vão declamando para o espaço educativo como se fossem a última descoberta da Ciência. E afinal basta-nos criar uma confiança crítica e responder ao essencial. A indisciplina é um território vasto, complexo, necessitando de abordagens diversas, tão plurais como o coração e não é uma vista aberta como sugere o senhor psicólogo. Um pouco mais de humildade e de sabedoria para traçar um caminho mais eficiente para a escola e para o futuro da educação e dos jovens, neste país.


(1) Luís Picado, Coordenador do Instituto de Ciências Educativas
(citado do Jornal i-online)
Imagem, in http://www.fan.pop.com

Memória de Livros



«A porta da biblioteca dava para o corredor, ali onde eu fazia as minhas correrias nocturnas, cada vez mais espaçadas. Mas no silêncio da manhã, na suave penumbra, pareciam renascer do chão mágicas travessias e um aroma a cera e a madeira e a tapete aquecido pelos radiadores que tornaram a despertar em mim a magia das minhas viagens a sonhos e descobertas secretas. (...)


Com frequência, deitávamo-nos no chão, de barriga para baixo, partilhando o mesmo livro e  o mesmo bocadinho de tapete. Tacitamente escolhíamos sempre o mesmo bocado, com os mesmos desenhos e cores, uma mescla de losangos e círculos azuis e castanhos. Com os dias, acabou por ser um território próprio, uma espécie de refúgio-cabana num bosque, onde entrávamos para nos transferirmos para espaços visíveis através das suas palavras, de onde saíamos para nos reincorporarmos no mundo exterior. Eu via aquele bocadinho de tapete como porta, fechadura e chave de um país só nosso. Abria-se ao entrar, fechava-se ao sair. Um segredo tão íntimo que nem sequer se podia referir em silêncio, com o livro aberto e partilhado. (...)


Semiabraçados sobre a dobra, aquela dobra do lençol que, como uma vela, ainda retém o vento das Viagens de Gulliver, ou a solidão de Robinson, ou a inquietação do jovem Jim, de a Ilha do Tesouro... E, sobretudo isso, uma fuga sem fronteiras, sem meta sequer, que nos arrastava até à Ilha de Jim ou ao País do Nunca. (...) 


Era uma varanda bastante grande, com balaustrada de arenito. A parede que nos separava da varanda vizinha parecia imitar os cenários do Teatro das Crianças. Tão frágeis, tão irreais, e tão verdadeiras. (...)
Gavi declarou:
- Este é o castelo que te disse ...
Aquela janela captara um céu nosso, imenso, e nele regressámos ao território de um tapete com losangos azuis e castanhos sobre o qual ouvíamos, mais do que líamos, a voz das histórias ou dos sonhos que povoaram a nossa primeira infância.»


in, Ana Maria Matute, Paraíso Inabitado, Planeta 
Imagem, Sophie Blackwall.butterflies