quarta-feira, 30 de junho de 2010

terça-feira, 29 de junho de 2010

Evocar um Homem Sábio

«Tu afinal és via e passagem, e só podes viver realmente daquilo que transformas. A árvore, a terra em ramos. A abelha, a flor em mel. E a tua lavoura, a terra negra em incêndio de trigo». (1)

É uma figura universal da nossa memória. Participou nesse momento único do século XX, em que a dignidade humana procurava recuperar dessa noite sem consciência, que foi a luta contra o nazismo. E foi um autor que nos deixou essa obra aparentemente simples, que é o Principezinho. Deu-nos um conjunto de ideias tão necessárias à nossa vivência quotidiana.

Ensinou-nos com a simplicidade das crianças que existe no quotidiano dos crescidos um mar de inutilidades, uma luta por uma conquista de objectos que nos afastam do coração, da essência dos sonhos. E é essa ausência que nos afasta dos outros, conduzindo a uma solidão, longe dessa representação da fantasia, que nas crianças está tão presente.

Chama-se Antoine de Saint-Exupéry e faz hoje justamente cento e dez anos que nasceu em Lyon para nos encantar com a sua fantasia tão necessária na espuma dos dias.

(1) - Antoine de Saint-Exupéry, Cidadela

O essencial

«Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Uma Revista...

(Não é só pelos livros que podemos conhecer, desfrutar o horizonte, interrogando a consciência sobre o que podemos construir e o que sabemos imaginar, nestes dias ausentes de claridade. Um projecto de uma revista especial, que é já um símbolo de cultura. A descobrir numa livraria perto de si, a edição de Julho da Egoísta).

sexta-feira, 25 de junho de 2010

À procura de Peter Pan

Partiu há um ano, mas houve nele algo de intemporal. As múltiplas personagens, no desencontro de uma infância que parece lhe ter fugido na construção de um sucesso precoce. O exagero da imagem para o sucesso que o tornaria refém desse mito de eterna juventude que espera nunca crescer, numa eternidade construída sempre jovem.

Protagonizou imensa controvérsia, numa vida em que a Terra do Nunca e uma eterna rebeldia nos faz recordar esse livro extraordinário, de Barrie, Peter Pan. O eterno ícone, que parece não ter idade, onde aventuras múltiplas constroem um imaginário onde as regras se comprometem a uma vontade de mudança. E onde ainda se afirma a procura pela graça única das crianças, por esse mundo onde a imaginação parece permitir construir um mundo próprio.

Chamou-se Michael Jackson. Partiu para essa Terra, onde a memória e a imaginação não têm cores, há já um ano e pela diferença que protagonizou merece esta palavra de lembrança que aqui deixamos.

sábado, 19 de junho de 2010

Na Luz dos Jacarandás

Junho chegou ao fim, magoada
Luz dos jacarandás, que me pousava
Nos ombros, era agora o que tinha
Para repartir contigo

Um coração desmantelado

Que só aos gatos servirá de abrigo


(1) Eugénio de Andrade, «Despedida», in Antologia Poética
Imagem - Os Jacarandás, na Boavista

Aniversário do Gato Garfield

Faz hoje, justamente trinta e dois anos anos que Jim Davies nos trouxe num discursos narrativo simples, mas bem humorado um gato que se tornou célebre, Garfield.

Dois Poemas

«Não me peçam razões, que as não tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Não me peçam razões por que se entenda
A força da maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não o aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe;
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor da Primavera que há-de vir.» (1)

«(...) Levantamos um punhado de terra e apertemo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno,
a vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.

Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raíz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.» (2)

(1) José Saramago, «Não me peçam razões» ,in Os Poemas Possíveis
(2) José Saramago, Na ilha por vezes habitada, in Provavelmente Alegria

A maior Flor do Mundo - José Saramago

Actividades de Leitura (BE - EB1 dos Leões)




Exposição Final de Trabalhos - Ensino Articulado de Música - Escola Sede





Exposição Final de Trabalhos - Educação Visual e Tecnológica - Escola Sede






Exposição Final de Trabalhos - Estruturas e Formas de Energia - Escola Sede





terça-feira, 15 de junho de 2010

A chegar...



«Todos sabem que os benefícios de ter um rinoceronte em casa são imensos. Ou não? Enfim, não serão todos... na verdade, talvez umas 4 pessoas... Bom, para aqueles que nunca pensaram nisso, acaba de chegar o livro que pode ajudar a compreender melhor o que estamos a tentar dizer: “Quem quer um rinoceronte barato?” de Shel Silverstein.

Publicado em 1964, este é o livro onde finalmente se explica o que este fantástico mamífero perissodáctilo é capaz de fazer para além de ruminar nas savanas e florestas tropicais da África e Ásia. Para além disso, também vem contrariar aqueles que o descrevem como anti-social e particularmente irritável. Puras mentiras.

Se nunca conseguiram decidir qual o melhor animal de estimação para vossa casa, não desesperem. Eis a solução que vos fará esquecer hamsters, chinchilas, iguanas, porquinhos da Índia e outros que tais. Ainda por cima, é um rinoceronte barato, fácil de tratar e cheio de talentos: adora jogar às escondidas, é muito confortável quando nos sentamos no colo dele, é uma grande ajuda quando a avó faz doces, está sempre a fazer surpresas, salta à corda, ajuda a tricotar camisolas, entre muitas outras coisas.

É verdade que há alguns problemas em ter um bichinho destes em casa, mas o que é que isso interessa quando ele nos aquece nas noites frias de inverno e faz desaparecer as más notas da escola antes que os pais as vejam.
Sejam então bem-vindos, uma vez mais, ao mundo do tio Shelby».


in http;//www.bruaa.pt

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Leituras...

«Era uma vez uma árvore... que amava  um menino. E todos os dias o menino vinha, juntava as suas folhas e com elas fazia coroas, imaginando ser o rei da floresta. Subia o seu tronco, balançava-se nos seus ramos, comia as suas maçãs, brincavam às escondidas e quando ficava cansado, dormia à sua sombra. O menino amava aquela árvore... E a árvore era feliz.» 

É um livro cuja data de publicação original é já de 1964. Shel Silverstein, um dos mais conhecidos escritor e ilustrador norte-americano, dá-nos um livro que em sucessivas gerações tem cativado pela simplicidade de uma história sobre uma árvore e um menino. A árvore assume a generosidade extrema de se esquecer de si própria, numa lição de grande ecologia sobre o significado da destruição das florestas.

É um livro que nos dá igualmente um conjunto de valores sobre as escolhas pessoais e como o tempo vai limitando as possibilidades de existência em cada quotidiano.  É um livro que tendo ilustrações muito desprovidas de cor e de grande dinamismo, dá-nos as sucessivas dádivas da árvore que se vai despojando, generosamente dos seus bens. 

É ainda um livro que nos faz questionar sobre a felicidade, a dimensão de sacrifício que pode ser ou não considerado de feliz, quando se perde o essencial. Em que medida a sua generosidade compromete a sua própria felicidade? Sendo um livro para crianças, é sem dúvida um livro marcante, pela sensibilidade que oferece aos seus leitores. Na audição feita na Biblioteca os alunos revelaram gostar desta fascinante história

domingo, 13 de junho de 2010

Leituras...


«A aula de desenho tinha terminado, mas a Vera continuava colada à cadeira. A sua folha estava vazia...»

A partir da leitura deste clássico da literatura infantil de Peter H. Reynolds, desenvolveram-se algumas actividades de expressão plástica: o ponto, a cor e o significado que lhe damos. Alguns dos exercícios de cor produzidos na Biblioteca, na motivação à leitura, mas também ao incentivo de que é sempre possível concretizar uma ideia.





Qualquer coisa entre Nova Iorque e a Sé de Braga

«Que me importa o que serei? Quero é viver. Amanhã. Espero sempre um amanhã. E a vida é sempre uma curiosidade.» (1)

Nasceu em Braga em Dezembro de 1944, e há justamente vinte e seis anos que deixou de mostrar a sua irreverência, a sua elasticidade em tornar mais amplo o olhar. Ambicionou construir uma carreira musical no momento em que o País saía do cinzentismo do Estado Novo, ainda a descobrir novas possibilidades.

Autodidacta, quis construir uma ideia musical que ligasse a tradição e a modernidade. Interrogou na sua curta carreira e vida todas as inquietações que nos assombram. Foi um homem antes do seu tempo. Do tempo das limitações tecnológicas, mas que sabia construir com determinação, com curiosidade, com alma as ideias do quotidiano.

Chamou-se António Variações e vale sempre a pena recordá-lo.

Uma das suas mais belas músicas, em homenagem a todas as mães.

(1) António Variações - Quero é Viver

A Nossa Universalidade


(Já aqui falámos dele por diversas vezes. Mas é sempre insuficiente. Ele é um património muito acima do pequeno País que o viu nascer. Deu-nos a universalidade dos sonhos, das múltiplas capacidades, das contradições e limites da natureza humana. E inventou a Língua, no sentido em que deu às palavras significados próprios, de onde nasceram atmosferas desconhecidas. Nasceu há já cento e vinte e dois anos, em Lisboa e é um poeta do Mundo. Dois breves excertos da sua genialidade).

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é sombra
De árvores alheias. (...)

Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos Deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Fernando Pessoa, no seu heterónimo Ricardo Reis
«Para ser Grande», «Segue o Teu Destino»

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Luís Vaz de Camões...

No Mundo quis o Tempo que se achasse

«No Mundo quis o Tempo que se achasse
O bem que por acerto ou sorte vinha;
E, por experimentar que dita tinha,
Quis que a Fortuna em mim se experimentasse.

Mas por que meu destino me mostrasse
Que nem ter esperanças me convinha,
Nunca nesta tão longa vida minha
Cousa me deixou ver que desejasse.

Mudando andei costume, terra e estado,
Por ver se se mudava a sorte dura;
A vida pus nas mãos de um leve lenho.

Mas, segundo o que o Céu me tem mostrado,
Já sei que deste meu buscar ventura
Achado tenho já que não a tenho».

Busque Amor novas artes, novo engenho

«Busque Amor novas artes, novo engenho
Para matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal tirará o que eu não tenho!

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, enquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê,

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como e dói não sei porquê».

Luís Vaz de Camões,
No Mundo quis que o Tempo que se Achasse, Busque Amor novas artes, novo engenho
in Antologia Poética

Dia de Portugal...

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Um País sem História

«A iniciativa que prevê a participação de um grupo de crianças vestidas com roupas a simular as fardas da Mocidade Portuguesa, consiste num revisionismo inaceitável da História». (1)

A realidade tem trazido muitos acontecimentos que merecem comentários, análises e que se relacionam com os objectivos de literacia da informação que uma Biblioteca deve promover. As nuvens que circulam no horizonte já nos tentaram muitas vezes, mas esta é uma plataforma que se operacionaliza num espaço educativo e por isso os deixámos apenas circular sobre a nossa atenção.

Este caso é diferente. É pior. É ainda mais grave. Uma escola decidiu promover uma actividade onde visualmente, com a sua iconografia pretende trazer a História Contemporânea do Século XX ao conhecimento dos seus alunos. Um deputado da Nação, entretanto já acompanhado por outras figuras, certamente ilustres, pensam que tratar junto dos jovens um período histórico é uma vergonha nacional, uma reescrita da História.

Parece pouco, mas esta atitude enquadra uma visão da sociedade em que a História serve para realizar o combate político. Revela que para alguns que alimentam o espectro político, há a História positiva e a negativa, a que promove o progresso e a que se opõe a qualquer dinamismo, que só deve ser esquecida.

No século XX vive-se entre a generosidade Republicana e a iniquidade do Estado Novo. Os professores que promovem esta actividade sabem e certamente o explicitam aos seus alunos, aquela que foi, a natureza autoritária e refractária da liberdade do Estado Novo.

A memória compreende-se, discute-se e avalia-se pelos quotidianos que permitiu construir ou que limitou aos seus cidadãos. Um País que não sabe aceitar a evolução da sua sociedade não saberá nunca reflectir sobre os caminhos e os critérios para construir novas oportunidades.

É desolador que na Democracia ainda se observem atitudes em que se procure usar a História, sem se compreender que é discutindo, reflectindo sobre as sociedades que os mais novos poderão compreender as próprias limitações do crescimento. Do Grego, à Filosofia, à História, não é só a visão utilitária que destrói uma escola vinculada com o conhecimento. É esta pequenez que nos conduz a uma guerra com sombras que nos torna incapazes de assumir critérios de verdadeira dignidade com o presente.

(1) Pedro Soares, (deputado do Bloco de Esquerda)
citado de http://publico.pt

domingo, 6 de junho de 2010

Prémio Camões

«O preço do feijão

não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão (...)

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço (...)

Do fundo de meu quarto, do fundo
de meu corpo
clandestino
ouço (não vejo) ouço
crescer no osso e no músculo da noite
a noite

a noite ocidental obscenamente acesa
sobre meu país dividido em classes».



Ferreira Gullar, Não Há Vagas e Madrugada