sábado, 27 de fevereiro de 2010

Na Memória de Ruy Belo

E Tudo Era Possível
Na minha juventude antes de ter saído
de casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido.

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido.

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer.

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer.


Ruy Belo, in Homem de Plavra[s]
Imagem, in corpodepoema.blogspot.com

(Nos setenta e sete anos do nascimento de  um poeta importante do século XX, que nos seus breves dias nos trouxe a alegria das manhãs, como imagens do que soube conhecer.)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Evocar José Mauro de Vasconcelos

«Eu sorri cheio de dor, mas dentro daquela dor tinha acabado de descobrir uma coisa importante. (...) Dindinha uma vez dissera que alegria é um «sol brilhante dentro do coração». E que o sol iluminava tudo de felicidade. Se era verdade, o meu sol dentro do peito embelezava tudo...» (1)

Os livros são territórios que nos permitem alcançar com mais facilidade a imaginação e com eles encontramos o modo como em tempos diferentes a infância foi olhada pela sociedade no seu conjunto. Neste sentido a literatura é assim uma fonte para o estudo desse «território desconhecido», nas palavras de Helena Vasconcelos.

O Meu Pé de Laranja Lima é uma incursão pela pobreza, pela incompreensão vivida pelo mundo adulto num determinado tipo de sociedade, mas acima de tudo é uma demonstração de um mundo infantil com as ferramentas do sonho, da ternura, capaz de tornar o real mais suportável. A apreensão de um mundo infantil povoado de sonhos poucas vezes nos trouxe tão emocionados para a nossa dimensão humana.
Este desencontro com a felicidade é um campo onde as sociedades contemporâneas e a literatura coincidem pela dimensão que a própria criança readquiriu em relação a sociedades passadas.

José Mauro de Vasconcelos, que aqui evocamos nos noventa anos do seu nascimento, escreveu um livro que no seu próprio tempo foi um sucesso pela sensibilidade com que apresentou os dilemas da existência de uma criança, que também o era de uma sociedade concreta. De origem humilde, exerceu diferentes profissões em diferentes locais, escritor de grande sensibilidade com uma narrativa simples e original, escreveu entre outros, Banana Brava (1942), Rosinha minha canoa (1962), O Palácio Japonês (1969), O Veleiro de Cristal (1973) e O Meu Pé de Laranja Lima que foi publicado em 1968. Se há livros que nos relembram as tardes em que se iniciava a leitura do mundo, nos sabores da distante infância este é um deles.

(1) José Mauro de Vasconcelos, O Meu Pé de Laranja Lima

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A Voz da escrita ... na Póvoa


Na cidade natal de Eça, iniciou-se ontem a 11ª edição de uma das mais importantes manifestações culturais ligadas à palavra e à representação da voz individual. Iniciada sob a inspiração de Agustina Bessa Luís, decorre até dia vinte e sete deste mês, Correntes de Escritas, com dezenas de actividades, encontros, palestras, convívio em redor das imagens que dão cor às páginas dos livros.
A decorrer na Póvoa, este quase milagre de promoção das ideias à volta de diferentes autores, com a persistência de quem acredita na cumplicidade da palavra. Com visionamento de documentários, discussão de ideias a partir da leitura de versos de Alberto Caeiro, «Passo e fico com o universo», ou ainda a apresentação de novos livros ou o reconhecimento de diversos autores, finalistas do Prémio Literário Casino da Póvoa, Correntes de Escritas é o grande momento das Letras e da sua promoção neste País.
Aos interessados, da vasta e variada programação, a ocorrer na Póvoa, ver aqui.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Informação e Democracia

«O Estado somos todos nós. Portugal vive um imenso problema: perdeu-se o valor da solidariedade e da obediência ao interesse comum.» (1)

As sociedades contemporâneas como portadoras da participação individual de todos, necessitam para a sua consistência e desenvolvimento que os cidadãos participem com as suas escolhas sobre os diversos campos da acção governativa. Desde o Parlamentarismo inglês do século XVII, e sobretudo com a revolução americana, as sociedades abertas só podem ser desenvolvidas, se os cidadãos tiverem a oportunidade de usar a razão crítica para superar os erros de opinião que surgem no caminho.

Ora, esta liberdade, tal como o disse Thomas Jefferson, implica a discussão de ideias, a leitura variada das opções que são colocadas às pessoas, das quais emana a legitimidade do acto de governar. Numa sociedade desta natureza, como são ou pretendem ser as dos nossos dias, é indispensável poder formular juízos de opinião. A liberdade de contribuir para o crescimento económico e social depende de uma informação alargada e variada.

Não é isso que demasiadas vezes acontece em Portugal. Existe uma maioria de cidadãos que não acede aos factos que lhe permitam estabelecer conclusões e escolher mais conscientemente. A sociedade civil não tem forma de se fazer ouvir. Não existem instituições intermédias capazes de relacionar de forma natural os que governam e os outros, os que não são ouvidos. A representação formal do poder não é uma grarantia que os cidadãos contribuem com as suas ideias.

António Barreto, na sequência de outros projectos sobre a realidade social portuguesa contemporânea, preside à fundação Francisco Manuel dos Santos, que agora nos apresenta, a Pordata. É um projecto que nos oferece de forma gratuita uma imensa base de dados sobre este País, em diferentes vertentes. Estes suportes abertos e disponíveis são essenciais numa sociedade onde «a informação, é ela própria, a Democracia», nas palavras de José Gil. Como instrumento e fonte de informação é igualmente um recurso muito importante para as Bibliotecas, e para o trabalho das Literacias. Para poder consultar, aqui.

(1) António Manuel Hespanha,
in Prós e Contras (22-02-2010)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

José Afonso

A memória nos passeios de tílias


Nas palavras e no coração as memórias de uma paisagem humana que foi preenchida pelos nossos sonhos, mesmo agora que a tragédia nos faz duvidar das paredes e dos aromas que aqui experimentámos. Fernando Alves, com a magia e a sabedoria de quem olha com espanto o real que nos é dado a viver. A ouvir como uma oração. Daqui.

Projecto Escola Electrão


   A escola electrão é um projecto que procura motivar todos os utilizadores dos espaços educativos para a preocupação da reciclagem de resíduos de equipamentos eléctricos e electrónicos. Para a concretização do projecto a Amb3E concebeu um contentor pra receber este tipo de resíduos. 
   O Ponto electrão irá visitar a sede do agrupamento entre os dias vinte e três de Fevereiro e cinco de Março, datas entre as quais todos os elementos que integram o agrupamento podem utilizar este recurso de promoção da qualidade ambiental. O dia de visita do ponto electrão ocorrerá no próximo dia cinco de Março, na sede do agrupamento (EB 2,3 Mem Ramires).

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

De peito aberto e espírito livre...


«Mas quem do quarto central avança para a varanda e vê, de frente, a praia, o céu, a areia, a luz e o ar, reconhece que nada ali é acaso mas sim fundamento, que este é um lugar de exaltação e espanto onde o real emerge e mostra o seu rosto e sua evidência.» (1)

Um Blogue de uma Biblioteca é uma plataforma de comunicação. A leitura só é um acto transformador quando lhe é possível contribuir para os momentos em que  a aventura humana se torna imortal. Pela sua natureza de humanidade, e por esse olhar preenchido com serenidade e sabedoria, em que nos tornamos parte de um conjunto.

Já aqui tínhamos falado dele. Da sua missão em ver em cada geografia territórios humanos e consolá-los o melhor possível. A sua cidadania exercida em territórios de desolação ou de pobreza são conhecidos. Olhando para  o seu projecto reconhecemos nele uma sabedoria de quem se dedica ao essencial, o rosto mais digno do real. A simpatia e a amabilidade como partes indissociáveis da humanidade.

Portugal não tem a tradição do espaço público de comunicação de ideias. A sociedade civil é pouco participativa, o nível de associativismo é ainda reduzido, o empenho social de muitos empresários é residual. O País  encostado a um tempo histórico parece refém da sua apatia e conformado com uma estagnação estrutural. Parece incapaz de participar no tempo da sua civilização. Nas palavras de Eça, «apenas existir».

A candidatura de Fernando Nobre à Presidência da República, anunciada hoje é uma notícia feliz. É a voz da cidadania exercida em tantas geografias que procura lutar por um País mais justo, com menos pobres, onde mais pessoas possam dar o seu contributo para o futuro. Mas, igualmente serem também mais felizes. Apesar das dificuldades que serão imensas, e que a classe política já vai dando conta,  este será um projecto que dignificará a participação cívica dos portugueses. A base de uma real Democracia constrói-se num diálogo efectivo e partilhado e no exercício de uma razão confiante.

(1) Sophia, Histórias da Terra e do Mar

Ouvir Poesia...


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010


Integrado no Projecto Europeu «Os Contos do Caminho», inicia-se amanhã a inauguração de uma exposição Os Sete Cabritinhos, de Teresa Lima no Bichinho de Conto. Com Texto de Tareixa Alonso e editado pela OQO esta exposição faz uma mostra da ilustração deste livro. A exposição estará patente até vinte de Março no espaço da conhecida livraria de Óbidos.

O Projecto «Os Contos do Caminho», é financiado por diversas entidades europeias, juntando Portugal, Espanha e França e é apoiado pelas editoras Bichinho de Conto, OQO e La Compagnie Créatrice. 

«Destinado prioritariamente a crianças do Ensino Básico, este projecto visa promover junto do público infantil o conhecimento do Caminho de Santiago e os seus traços europeus enquanto itinerário cultural de encontros e trocas entre as diferentes culturas.

Por outro lado, procura promover também obras de arte e contos de tradição oral dos vários países europeus. O projecto compreende o livro e a leitura, para além da salvaguarda do património, visando o desenvolvimento do espírito criativo da criança. Apoia-se na palavra do contador, na imagem ilustrada, na narração audio-visual e na fotografia.

Durante seis meses (de Janeiro a Junho de 2010), mais de 20 000 crianças dos três países percorrerão simbolicamente o Caminho de Santiago através de ateliers do conto e da arte.» (1)

(1) in http://olivroinfantil.blogspot.com

Beatriz e o Plátano - 3º/4ºD

(Paulo Inhuaz)

(Pedro Miguel Tavares)

(João Almeida)

(Ricardo Henriques)

(Trabalhos realizados pelos alunos do 3º/4ºD, a partir da leitura de Beatriz e o Plátano, de Ilse Losa, feita pela Professora Paula Cristina Silva).

Leituras...

Beatriz e o Plátano

Certo dia constou que as autoridades tinham resolvido deitar o plátano abaixo. Achava elas que o novo edifício dos Correios ficaria mais bonito se não houvesse nada a ensombrá-lo. Iria ter a fachada pintada de duas cores, caixilhos de alumínio e, ainda, um painel de azulejos por cima da entrada. Ora o que era uma velha árvore comparada com tal modernidade e esplendor? Assim pensavam as autoridades que se preparavam para ficar célebres na história da cidade e, uma das diligências mais importantes era, na ideia deles, acabar com as «velharias inúteis». Era assim que classificavam as árvores com centenas de anos de idade.

Beatriz, quando soube da notícia, ficou alarmada. Como era possível que alguém se atravesse a deitar abaixo o plátano, o seu velho amigo, o mais lindo plátano em toda a cidade e sempre tão apreciado que até servira para dar nome à rua onde crescera? E não faria tão boa figura em frente do novo edifício como a que tinha feito em frente do desaparecido? Não continuaria também a dar hospedagem aos pássaros e abrigo às pessoas nos dias chuva ou sol?

Que mais podia um edifício novo desejar do que ter como enfeite uma árvore daquelas, conhecedora de tudo o que, durante alguns séculos, acontecera na Rua do Plátano? E talvez até soubesse falar, é bem possível, e então talvez pudesse contar ao edifício novo tudo aquilo a que assistira nos tempos passados. Foi em tudo isto que Beatriz pensou.

Falou aos pais e aos professores, mas ninguém lhe indicava uma solução para o caso. Todos diziam: - Quem manda na cidade são as autoridades. Finalmente, Beatriz resoveu escrever uma carta a essas autoridades que, no seu entender, estavam prestes a cometer uma falta irreparável pois, mesmo se um dia se viessem a arrepender de ter feito perder à cidade o plátano mais lindo que lá havia e se resolvessem  a plantar outro, quantos e quantos anos não levaria ele a fazer-se uma árvore que se visse!  Foi o que explicou na carta e, no fim rematou:

«As senhoras autoridades decerto vão achar que eu tenho razão e, por isso, desistirão de deitar abaixo o plátano da Rua do Plátano. Hão-de ver que vai fazer o mesmo vistão em frente do novo edifício dos Correios que fazia em frente do velho.
Muitos cumprimentos da Beatriz.»  


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A Leitura dos Clássicos...

«Há sobretudo esse tempo que é transportado fisicamente pelos livros. Esse pó que fica nos livros. O pó do tempo (...) a própria essência da nossa vida.» (1)

Anthony O'Hear veio a Lisboa fazer a apresentação da edição portuguesa do seu livro, Os Grandes Livros. Fruto da sua colaboração com a Universidade Católica, o presente livro remete-nos para dois mil e quinhentos anos do pensamento humano. Nele se destacam autores desde a aventura grega, Homero, Virgílio e Platão, a um dos séculos mais interessantes da Antiguidade Clássica, com Cícero até aos autores medievais chegando ao período da segunda explosão do conhecimento humano. De Camões, a Cervantes, a Shakespeare, a Racine e a Goethe.

Este não é um livro que apenas nos apresenta marcos do pensamento e da cultura que fundaram a civilização ocidental. É um livro que nos transporta para a leitura de autores e pensadores que só aparentemente estão longe de nós. Com eles podemos readquirir os instrumentos que fizeram o suporte de uma educação que a cultura anglosaxónica designou de «gentlemanship».(2) Isto é, os meios e os suportes para formar cidadãos esclarecidos, capazes de obterem uma formação de carácter, essencial para uma sociedade de direito.

Esta ideia de uma civilização construída sob uma «educação liberal», capaz de garantir uma sociedade com sentido de dever para todos os cidadãos foi construída desde a cultura Grega, que tendo sido dominada formalmente pelos Romanos trouxeram ao futuro toda a sua ideia de formação intelectual.
Questão importante, pois a evolução recente das sociedades contemporâneas parece querer esquecer o fundamento deste património।
Hoje vive-se numa miragem de instrumentos tecnológicos, suporte de um Estado tecnocrático, onde a memória é marginalizada, tornando-se cada vez mais difícil fazer a ligação ao tempo de que falava Agostinho da Silva. «Todo o passado como o futuro coincidem num ponto, que se chama o presente.» (3) É esta ligação que estamos como sociedade a destruir, num universo de um barulho tecnológico, incapaz de recuperar a intimidade, base da civilização.

Hoje considera-se apenas válida a actividade que seja unicamente utilitária. O desprezo a que disciplinas como o Grego, o Latim e a História são votadas esclarece esta ideia, que vem alterando o próprio sentido da sociedade. A Universidade, ela própria tem sido vítima desta alteração, onde a conversação, a discussão das ideias por elas próprias, quando não servem para produzir qualquer bem material é já uma dispensabilidade.

É esta a importância da leitura e dos livros que pertencem à nossa memória. Com eles nos redescobrimos, aceitamos a humildade de quem antes nos deixou pensamentos e sugestões. Sobretudo com eles reafirmamos o que John Henry Newman nos disse em 1854:« ter um intelecto cultivado, um gosto delicado, (..) uma atitude nobre e cortês na condução da vida».(4) São afinal o elemento que durante séculos organizou a Universidade e o fundamento do conhecimento.

No fundo, a circulação da informação a que assistimos a nível planetário, só pode ser interagida, fiavel e aberta se cada cidadão tiver a oportunidade de revelar a sua expressão pessoal. É com ela que cada um pode contribuir para a recuperação dos valores humanistas que estão entorpecidas com uma sociedade vinculada a uma engrenagem tecnocrática, afastada do silêncio e do coração do Homem. É esse o papel transformador da leitura. Neste sentido Os Grandes Livros é uma oportunidade de recuperar essas vozes que pensaram, sentiram e que nos dão como disse Yourcenar «essa intermitente imortalidade.» (5)

(1) Eduardo Loureço, citado de Opodoslivros.blogspot.com
(2) João Carlos Espada, «Os Grandes Livros», in http://www.ionline.pt
(3) Agostinho da Silva, citado de Associação A.Silva
(4) in, «A Ideia da Universidade»
(5) Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano

Máscaras de Carnaval





(Alguns dos trabalhos feitos por alunos na disciplina de EVT na EB 2,3)

Inauguração da Biblioteca da Escola Sede do Agrupamento



(A escritora Ana Maria Magalhães participou com um conjunto variado de alunos de diferentes anos que integram o agrupamento, num conjunto de actividades a que já aqui tínhamos dado conta. Aqui fica a ilustração visual do dia em que foi inaugurada a BE da sede do Agrupamento).

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Dia de Carnaval

Moda do Entrudo

«Ó Entrudo, ó entrudo
Ó entrudo chocalheiro
Que não deixas assentar
As mocinhas ao soalheiro.

Eu quero ir para o monte
Eu quero ir para o monte
Que no monte é que eu estou bem
Que no monte é que eu estou bem (...)

Estas casas são caiadas
Estas casas são caidas
Quem seria a caiadeira
Quem seria a caiadeira
Foi o noivo mais a noiva
Foi o noivo mais a noiva
Com o ramo de laranjeira,
Quem seria a caiadeira.»


(Moda Popular)
Imagem, os Caretos de Podence
in http://www.azibo.org

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Agostinho da Silva - A simplicidade


«(...) tenho a coerência de ser incoerente e a originalidade de não me importar nada com isso

É apenas a maior figura do pensamento português do século XX. Tinha de si uma ideia de humildade tão cativante como os sábios do renascimento. Quando olhamos para a sua voz colhemos nela uma brisa de frescura que trouxe dos horizontes de Barca D'Alva onde passou a infância. O seu espírito condutor de uma imensa e nobre liberdade faz-nos parecer seres desprovidos de orientação. Fundou no Brasil universidades e institutos com a sabedoria de quem vê no conhecimento a geografia criativa do Ser.

Em Portugal foi expulso do ensino, preso pela P.I.D.E., viveu de lições particulares onde seduziu com o seu pensamento original os que puderam ouvi-lo. Em 1969 regressou a Portugal e continuou a ensinar, a escrever, e sobretudo a maravilhar com a simplicidade de quem tem uma opinião sobre todos os assuntos. 

Nasceu no Porto, a 13 de Fevereiro de 1906 e deixou uma obra se extensa e dispersa, sobretudo criativa do génio maior do homem, a sua liberdade para se exprimir criativamente. Defensor de uma ética na condução das acções humanas e de um sentido de felicidade inerente ao ser vivo é hoje ainda mais quando viveu portador de uma mensagem que importa destacar e promover.


(1) http://fumacas.wordpress.com
Imagem, in bibliotecaflul.wordpress.com

Evocar Humberto Delgado


(A campanha de Delgado em 1958 à Presidência da República)

Lembramos os quarenta e cinco anos do desaparecimento violento de um homem que tendo vivido no interior do Estado Novo soube como adido nos Estados Unidos compreender que uma das facetas do homem moderno é a liberdade. Em 1958, como candidato da oposição congregaria um mar de esperança e de agitação no País, contra a máscara de Salazar que se impunha à própria realidade. Um tributo à coragem de um homem de contrastes, que contribuiu para renovar um regime isolado da modernidade e do progresso.

Imagem, in kontratempos.blogspot.com

Leituras (sobre Darwin)...

«(...) Henriqueta morreu no dia 23 de Junho de 2006, no jardim zoológico onde passou grande parte da sua vida, recordando sempre o nome e a vida de Charles Darwin, de quem, na linguagem especial das tartarugas, nunca deixou de afirmar que era amiga desde o tempo em que o Beagle chegou às ilhas Galápagos, povoadas por tartarugas, iguanas e milhares de outras espécies de animais que estiveram na origem da reflexão que levou um homem destinado a ser pastor protestante a tornar-se um dos maiores e mais revolucionários cientistas de todos os tempos.
 Como ninguém sabe o que se passsa para além deste mundo terreno em que todas as espécies coabitam, é bem possível que Henriqueta e Charles Darwin já se tenham encontrado algures, entre as nuvens, estrelas e cometas, e tenham dito um ao outro, numa linguagem de afectos que pode dispensar as palavras:
  - Aqui estamos outra vez juntos, mas agora para a eternidade.»


(Aqui tens um livro para conheceres a vida de Darwin e da sua tartaruga e de como o cientista inglês formulou as suas conclusões sobre a evolução das espécies).

Imagens, in afonsocruz.com

Charles Darwin

O Conhecimento como forma organizada de compreender o universo, como espaço físico e organizador da vida, é um processo que o Homem vem procurando realizar, desde que os Gregos se aventuraram por estes caminhos, no longínquo período clássico da História da Humanidade. A preocupação por entender com uma linguagem própria aquilo que nos é dado a observar foi perseguido por outros que marcaram a História da Ciência.

Charles Darwin que aqui hoje destacamos foi um deles. Nasceu a doze de Fevereiro de 1809 em Shrewsbury, na Inglaterra e a sua atenção, desde cedo se orientou para os fenómenos naturais. Estudou Teologia, onde contactou com o estudo de temas ligados à Geoologia e à Botânica. A sua vida e também um pouco a nossa alterou-se com a viagem que fez a bordo  do Beagle, que lhe permitiu recolher e observar para estudo fósseis e amostras da Natureza.

Com A Origem das Espécies e A Origem do Homem apresentou uma teoria nova sobre o fundamento do mundo natural.  Em A Expressão das Emoções defendeu a ideia de que quer o corpo, quer a mente sofrem processos de evolução. A ideia de que o Homem como espécie tinha evoluído de um antepassado comum seria um terramoto no campo das ideias. A sociedade burguesa do século XIX não podia aceitar as ideias que iam contra o seu próprio fundamento.

Pouco pensadores influenciaram tanto o mundo da Ciência como Darwin. A partir dele a Natureza apresentou-se-nos com outro olhar. A teoria evolucionista foi importante para a criação de outros campos científicos. A Biologia, a Medicina, a Antropologia são exemplos dessa procura da Ciência em se superar por fazer do mundo um todo inteligível. A capacidade de o homem se pensar a si próprio é um contributo que Darwin deixou. 

Embora as ideias que Darwin defendeu ao nível da evolução das espécies, da sua adapatibilidade ao meio natural tenham sido importantes na abertura a novos campos, elas em muitos aspectos não foram justificadas pela recente bioquímica. O Homem parece ser bem mais complexo na sua natureza do que aquilo que Darwin apresentou. É prudente reservar, tal como os Gregos faziam (a hybris), uma conciência dos limites que o Universo coloca às nossas acções.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Ilustrarte

Inicia-se hoje no Museu da Electricidade, a 4ª edição da Ilustrarte (Bienal Internacional de Educação para a Infância). Na presente edição a vencedora, já anunciada é a ilustradora belga Isabelle Vanderabeele, cuja obra se destaca pela sua técnica de criar ilustrações a partir de xilogravuras. 

Foram ainda destacados os trabalhos de Martin Jarrie e a dupla italiana Alessandro Lecis e Alessandra Panzeri. Na selecção oficial integraram-se ilustradores portugueses como Gémeo Luís, André Letria, Daniel Lima, Teresa Lima, Ana Sofia Gonçalves e João Vaz de Carvalho. 
Nesta edição da  Ilustrarte os visitantes poderão ainda assistir a uma exposição onde serão destacadas as obras de Luísa Ducla Soares e do ilustrador alemão Wolf Elbruch. Para conhecer o programa e os detalhes, ver aqui. Uma oportunidade para conhecer a ilustração para a infância. Em Belém, até 4 de Abril.

Nelson Mandela

«(...) E um povo/de homens recém-criados ainda cor de barro/ainda nus, ainda deslumbrados» (1)


(Demasiadas vezes caminhamos por estas linhas com ideias e pessoas que estando connosco, já não habitam o quotidiano destes dias. Hoje temos a oportunidade de falar de uma figura que nos devolve a dignidade da humanidade que em tantas ocasiões perdemos. Falamos de Nelson Mandela.

Há vinte anos, a onze de Fevereiro de 1990 (justamente ontem), era libertado de uma prisão de longas décadas, um homem que tinha oferecido a sua vida para resistir à segregação racial e lutar por um regime onde os negros tivessem acesso a direitos sociais, económicos  e políticos. Sentenciado a prisão perpétua em 1964, Mandela lutou convictamente por uma África do Sul onde diferentes raças tivessem uma oportunidade de contribuir para a formação de um País diferente e mais justo. 

A grandeza de Mandela está nessa visão de raros homens que compreendem que a unidade se constrói na diversidade. Prémio Nobel em 1993, chegou a Presidente da África do Sul no ano seguinte. Ao contrário de tantos políticos, que em diferentes geografias se cristalizam na obsessão pelo controle do poder, Mandela preocupou-se em unir o País, sem pretensões de manter esse vazio de circunstância que tantos admiram.

Mandela é ainda a nossa esperança. A de que ainda se pode acreditar em ideias dignas, capazes de transformar o futuro. A concretização nos homens de uma ideia de Ser comum a toda a Humanidade. É por fim a ideia reconfortante, tantas vezes apagada dos manuais, de que o papel do homem, da sua individualidade na História são essenciais para a mudança.

Invictus, é a narrativa da inteligência e da humildade de um homem que na presidência de um País com ódios e rivalidades antigas, procurou pelo desporto cimentar uma união para toda a comunidade. A chegar aos cinemas, numa adaptação de Clint Eastwood. Conferir aqui os pormenores da sua apresentação.



(1) Sophia, «Descobrimento», in Coral
Imagem, in diariocultural

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

«Faça lá um Poema» - Maria Sofia Saragoça (4ºA)


A Natureza está doente! (E.B. 1/J.I. do Pereiro)

A Natureza é tão bela
Mas tem sido tão poluída,
Que se não cuidarmos dela
Acabamos com a vida.

Os peixes morrem nos mares,
Na terra, o que está a acontecer?
Com o ar irrespirável
É difícil sobreviver.

Temos de salvar o Planeta
E só há uma solução
Com o esforço de todos
Acabar com a poluição.

 (Trabalho inserido no Projecto «Concurso Faça lá um Poema», promovido no âmbito do Dia Mundial da Poesia e apoiado pelo PNL).
Imagem, Peneloppe Dullagham, Hummingbird

Evocar Boris Pasternak


 «A noite vai bem avançada. Dá-me um fósforo...» (1)

Tolstoi dizia que quem desejava uma vida pacífica e tranquila não deveria nascer no século XX. O século das grandes transformações tecnológicas foi-o para a Humanidade de uma crueldade, onde ideologias à sombra de princípios pensados igualitários tornaram a vida de milhões num sacrifício indescritível. 

Doutor Jivago de Boris Pasternak é um desses livros universais que se serve do fundo histórico, dos dias vividos para nos dar a dimensão humana num período de profundas alterações sociais e políticas, os anos que precedem a revolução bolchevique na Rússia, até ao fim da 2ª grande Guerra. Pode o Homem num período de alterações tão bruscas, manter a sua consciência e permitir-se preocupar-se pelo exercício do bem como valor? 

Com Doutor Jivago vemos o confronto entre o homem do quotidiano e os que se dedicavam à utopia abstracta, que não é humana na voracidade das suas manifestações. Assistimos ao confronto entre a iniciativa de se querer exprimir e as representações do pensamento único e domesticado da ideologia. Boris Pasternak fez com Doutor Jivago a denúncia do que era essa Primavera prometida e como isso afectava o quotidiano das pessoas, sentindo-se que o conjunto dos cidadãos compreendiam como as novas ideias não satisfaziam as suas necessidades mais básicas. A insastifação é aqui uma forma de liberdade.

Doutor Jivago é um pouco mais do que a crónica de conjuntos sociais em desagregação pelo novo poder comunista em ascensão. Compreende-se a evolução trágica que o Mundo viveu em largas zonas entre o os anos vinte e quarenta do século passado. Sente-se como intelectuais se transformaram em funcionários do regime e de como Jivago é essa voz inconformista. Observa-se como se difundiu a fome, a miséria e as doenças num cenário de desorganização geral. O livro é construído numa denúncia que é apenas alimentada pela realidade observada, o que dá mais grandeza ao seu autor. 

Doutor Jivago acima disto tudo é um livro sobre o amor. O amor entre gerações, no seio da família e entre os protagonistas da história. Amor que se  sente no idealismo de Jivago, na sua atitude como escritor e como médico. Amor que se vê confrontado com diferentes opções e que nos dá uma ideia final. A única coisa acima das estruturas económicas e sociais, a única força capaz de resistir a todos os laços a que o homem se compromete, é o amor. Com ele consegue persistir no esforço de caminhar, apesar de todas as dificuldades e do cenário que envolve o filme.

Boris Pasternak nasceu em Moscovo, a dez de Fevereiro de 1890 e só após a sua morte, a sua obra seria autorizada na União Soviética. O livro foi editado em 1957, fora do país. Recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1958. David Lean realizaria a adaptação da obra em 1965, que daria um carácter único e mais visual deste grande quadro, que á história de Doutor Jivago. Omar Sharif e Julie Christie ganharam com ela também um pouco de imortalidade.

(1) Lu Yuan, «Melancolia«, citado de O Rio e o seu segredo
Imagens, Doutor Jivago de David Lean
in adorocinema.com