terça-feira, 30 de novembro de 2010

Pessoa entre pessoas

"Ainda assim, sou alguém.
Sou o Descobridor da Natureza (...)
Trago ao Universo um novo Universo
Porque trago ao Universo ele-próprio." (1)

Já lhe dedicámos alguns textos e sobre ele escreve-se diariamente em continentes de emoções e latitudes diferenciadas. A sua biografia, da qual já aqui demos conta em breves palavras é só uma impressão, um gesto de uma genialidade complexa, universal e original nas formas e muito rica de ideias.

Foi com ele que atingimos a universalidade dentro do particular Portugal, onde sabemos distinguir a palavra, a dúvida e o sonho. Inventou num mar de aparente solidão, uma nova forma de apresentar as palavras, de desenhar ideias de futuro construindo uma língua, uma literatura.

Ele somos todos nós. Aqueles que ele inventou nos quotidianos onde tantos seres particulares ganham a sua originalidade, a sua universal humanidade. Se há poeta, se há escritor, se há literatura ele é tudo isso. É a demonstração que um país é a sua cultura, a sua língua, as suas pessoas, a sua individualidade...

É o nosso maior poeta, o filósofo das partidas esquecidas e dos sonhos de conquista do infinito universo. Chama-se Fernando Pessoa, andou por aqui durante os milénios dos seus sonhos e faz hoje setenta e cinco anos que adormeceu. Continua a incomodar o real tão feito de aparentes compromissos de verdade e imaginação.
(1) Alberto Caeiro, "XLVI", Poesias - Heterónimos

Com um livro posso...

Com um livro posso aprender, ir ao mundo encantado, dar asas à imaginação e sonhar. Posso viver aventuras e brincar. Ter um livro é divertido pois podemos fazer tudo aquilo que sonharmos...

Com um livro posso viver muitas aventuras, conhecer novos amigos, entrar onde nunca entrei, conhecer coisas estranhas e ter fantasia.

Com um livro posso viajar para a fantasia e imaginar que estamos dentro do livro. Um livro faz ter imaginação e se entrarmos nesse mundo de imaginação podemos passar um dia muito feliz.

Com um livro posso dar largas à imaginação, voar, aprender, escrever, imaginar...

(1) Erica Crespo; Sofia Castanho; Beatriz; Maria Salomé - (4º B)



Leituras


(Na Biblioteca Municipal da Batalha, para partilhar leituras e livros.)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Dia Nacional da Cultura Científica - Cartaz

Pelas razões evidentes só amanhã será possível dinamizar a actividade relativo ao Dia Nacional da Cultura Científica, que oficialmente se celebrou na passada quarta-feira.

Actividade - Dia Nacional da Cultura Científica

No Nascimento de Eça de Queiroz

"O Partido Nacional retomaria então o poder, e Alípio Abranhos que, agora, era Governo, Influência, Força, Lei, passaria a ser o deputado loquaz de uma oposição estéril, pois que ninguém acreditava que os Reformadores - tendo subido ao poder por um acaso, vissem esse acaso repetir-se.Os Reformadores eram pois, na frase clássica,«um partido sem futuro». O próximo ministério Nacional havia de colar-se às cadeiras do poder durante anos. E poderia, durante anos, Alípio Abranhos ver as suas faculdades, o seu génio, gastarem-se na retórica hostil e rancorosa da oposição? (...)

Estas considerações pesou-as bem Alípio Abranhos nessas horas da tarde em que passeava solitário na alameda de loureiros; e quando em princípios de Novembro voltou para Lisboa, tinha decidido, no segredo da sua alma, passar-se com as suas armas de eloquência e a sua bagagem de saber para o campo do inimigo. Ia fazer-se oposição! (...)

Mas havia entre os Reformadores e os Nacionais ideais opostos? Abandonava Alípio Abranhos ideias queridas, para ir, por interesses grosseiros, defender ideias detestadas? Não. As ideias que servia entre o Reformadores ia servi-las entre os Nacionais. (...) Em política, o que eram os Reformadores? Conservadores constitucionais. E os Nacionais? Idem. (...)

Não desejavam ambos a estrita aplicação da Constituição, só da Constituição, de toda a Constituição? - Desejavam-na ambos, ardentemente. (...) Não tinham ambos um nobre rancor aos princípios revolucionários? Um rancor nobilíssimo. E em questões de Instrução, de Imprensa, de Polícia, não tinham ambos as mesmas óptimas ideias? Absolutamente as mesmas. Não eram ambos patriotas? Fanaticamente. (...)

Passou pois para a oposição o nosso grande Alípio, e com que prodigiosa impressão esse passo foi recebido no país, di-lo a História Cosntitucional".

Eça de Queiroz, O Conde D' Abranhos, págs. 299-300


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Rómulo de Carvalho por António Gedeão

Eu queria que o amor estivesse realmente no
[ coração,
e também a Bondade,
e a Sinceridade,
e tudo, e tudo o mais, tudo estivesse realmente no
[coração.
Então poderia dizer-vos:
"Meus amados irmãs,
falo-vos do coração",
ou então:
"com o coração nas mãos."

Mas o meu coração é como o dos compêndios.
Tem duas válvulas (a tricúspida e a mitral)
e os seus compartimentos (duas aurículas e dois
[ventrículos).
O sangue ao circular contrai-os e distende-os
segundo a obrigação das leis dos movimentos.

Por vezes acontece
ver-se um homem, sem querer, som os lábios
[apertados.
e uma lâmina baça e agreste, que endurece
a luz dos olhos em bisel cortados.

Parece então que o coração estremece.
Mas não.
Sabe-se, e muito bem, com fundamento prático,
que esse vento que sopra e que ateia os incêndios,
é coisa do simpático.
Vem tudo nos compêndios.

Então, meninos!
Vamos à lição!
Em quantas partes se divide o coração?

António Gedeão, "Poema do Coração", in Poemas Escolhidos



(Lágrima de Preta e Pedra Filosofal - dois dos muitos poemas da nossa humanidade, dados por António Gedeão a todos nós).

Rómulo de Carvalho

Este também é um dia para destacar alguém que desempenhou na sociedade portuguesa um importante papel como homem de cultura, onde as ideias de generosidade, de humildade e de profunda sabedoria nos deixaram um legado de grande alcance.

Sim, há pessoas difíceis de substituir, pela dimensão que representaram no conhecimento que fizeram da ciência, da investigação em tão variados campos e como a difundiram a outros. Há pessoas que sabem pela poesia, na utilização das palavras denunciar não só as injustiças, mas a própria estupidez que tantas vezes cerca a humanidade. E fazê-lo com graça, com elegância, com inteligência.

Rómulo de Carvalho foi um professor de físico-química, um ilustrador de livros de história, um fotógrafo, um escritor, um investigador e um escritor. Foi ainda um importante poeta, de nome António Gedeão, no qual acendeu a palavra entre os conceitos biológicos e físicos da matéria e os da humanidade.

Foi essencialmente um homem que num tempo de obscurantismo nos trouxe o papel enriquecedor e transformador do saber. Ao dia 24 de Novembro, Dia Nacional da Cultura Científica associa-se esta grande figura das ciências e das artes portuguesas.

Imagens do Dia



A Terceira Noite:

Defender o Quadrado:

Jornal Mudar de Vida:

O Cachimbo de Magritte:
«Quem manda é quem paga»

(Alguns das ideias na Blogosfera sobre a greve deste dia)
Imagem, in Ladrões de bicicletas.blogspot.com

terça-feira, 23 de novembro de 2010

As Manhãs ausentes

"It was only one hour ago it was all so different then
So hard to move on Still loving what's gone" - Peter Gabriel - I Grieve

(Como caminhar nos espaços vazios, entre as manhãs de sorrisos de quem partiu tão abruptamente, quando ainda mal tinha começado a viver).

No octagésimo aniversário de Herberto Helder

Um poema cresce inseguramente (...)

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento (...)
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sortida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo (...)»

(Na celebração dos oitenta anos de um grande poeta, o maior deste século ainda tão novo e já tão velho, ou a miragem de perder um pouco a beleza no esforço humano em construir "as torrentes infindáveis de rosas". Natural da Madeira, de lá nos tem enviado as palavras de uma condição humana sempre interrogada e esquecida dos holofotes onde os gestos vãos enchem a virtualidade de um quotidiano sem brilho. Aquele que faz deste País, um território de sombras, onde a sabedoria dos poetas é irrelevante.

Herberto Helder, "Sobre um Poema", in Ofício Cantante

Novidades

Leituras na Biblioteca



"Era uma vez um trevo que nasceu diferente dos outros. A princípio era apenas uma pequena semente, igual a tantas outras, que começou lentamente a brotar da terra. Mas quando cresceu tornou-se logo evidente que não era como todos os outros trevos. Em vez de três folhinhas em forma de coração, ele tinha quatro."





(Gonçalo; Beatriz; Mafalda - 1ºA)

Do nascimento de um poeta

No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas

Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos

Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva

Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito

Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio

Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios

Isso foi antes
de aprender álgebra

José Tolentino Mendonça, «A Infância de Herberto Helder»
(No nascimento de Herberto Helder)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Leituras na BE

«Sophia continuou sempre a escrever histórias para crianças, mas também poemas e contos para adultos. Para ela, o mais importante era que as pessoas - tanto as crianças como as mais crescidas - soubessem ser justas e distinguissem o bem e o mal. Por isso, em tudo o que fazia procurava sempre combater a injustiça e a maldade de que alguns seres humanos infelizmente são capazes. (...)

Sophia sempre soube que o professor Cláudio tinha razão. Por isso nos deixou histórias tão encantadoras e belos poemas que guardamos na memória. Mas o seu reino não era apenas o da fantasia. Era uma mulher interessada pelo mundo que a rodeava e gostava muito de viajar. De todos os países, o que mais lhe agradava era a Grécia, porque admirava a cultura grega e a paisagem do mar Mediterrâneo, com as suas ilhas cheias de história.

Até ao fim da sua vida, Sophia continuou sempre a escrever, rodeada pela sua grande família, com netos que adoravam aquela avó um pouco distraída e cheia de histórias para lhes contar. Recebeu muitos prémios, condecorações e homenagens pelas obras que escreveu, mas ela não ligava a essas coisas. O que lhe dava mais prazer era a alegria que brilhava nos olhos das crianças quando abriam os seus livros e se encantavam com a magia das suas palavras.

Sophia morreu no dia 2 de Julho de 2004, aos oitenta e quatro anos, mas continua viva para todos os que lêem as suas histórias e os seus poemas. E sempre foi fiel à frase do seu bisavô dinamarquês:[ " A minha casa é o caminho do mar"]».

A Minha Primeira Sophia
Fernando Pinto do Amaral, Fernanda Fragateiro (ilustrações)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Mar de Sophia



«Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim»

Sophia, «Mar Sonoro», in Coral


(A voz de Bethânia com as palavras do mar, num disco especial sobre o universo único de Sophia.)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Entre os Dias

Quando nos aniquila o infortúnio

o que nos salva por um segundo

são as infímas aventuras

da atenção ou da memória:

o sabor de um fruto, o sabor da água,

esse rosto que um sonho nos devolve,

os primeiros jasmins de Novembro,

o anseio infinito da bússola,

um livro que julgávamos perdido,

o pulsar de um hexâmetro,

a breve chave que nos abre uma casa,

o cheiro de uma biblioteca ou do sândalo,

o nome antigo de uma rua,

as cores de um mapa,

uma etimologia imprevista,

a lisura da unha limada,

a data que prócuravamos,

contar as doze badaladas obscuras,

uma brusca dor física. (...)



Jorge Luís Borges in Obras Completas, Editorial Teorema, 1989
Imagem, in http://www.1x.com

A Existência do País

"O fraco rei faz fraca a forte gente(...)" (1)

Os dias apresentam-se difíceis, cada vez mais visíveis na incapacidade de ser algo verdadeiramente decente. Um País que gastou milhares a consagrar as instituições soberanas da causa republicana, mãe das causas sociais e políticas do progresso humano e dos direitos sociais está perante a sua figura com a lucidez de sombras.

Não é verdade que um País, um homem, uma sociedade integre, viva o seu tempo. As instituições são o cimento da coesão da sociedade e o sistema político, se verdadeiro, se íntegro para com a sua função de serviço público não pode ser o refúgio, a justificação dos que na estabilidade, na permanência tornam toda a comunidade apaticamente passiva de uma crise moral.

Sem memória da história, entregue a uma Europa de burocratas que pensavam ser possível criar uma federação de estados sem qualquer constrangimento, apenas com a benevolência financeira da Alemanha, o País está mergulhado numa crise moral, onde qualquer direito é negociável e qualquer atitude usurária do bem público uma fatalidade. Os últimos anos foram a preparação desta crise onde o poder executivo e toda a sua justificação foi feita «à custa da credibilidade das instituições».(2)

Vive-se em Portugal, na casa das instituições do estado com a solidez da guarda pretoriana. A soberania já não é um valor de credibilidade ou de justeza. É possível estabelecer um contrato eleitoral e fazer o seu contrário. Como pergunta Helena Matos, «pode um pequeno país, entre as limitações da geografia e os azares da História sobreviver à incerteza de uma conduta que confunde a verdade com a inverdade?».(2)

É na fronteira da indignação que a greve do próximo dia vinte e quatro nos conduz. A resposta sendo pessoal deve-nos fazer reflectir contra este pensamento mágico que nos adormece sem brilho, nem graça.

(1) Luís de Camões, Lusíadas (Canto III)
(2) Helena Matos, Público (18 de Novembro de 2010)


terça-feira, 16 de novembro de 2010

Memória de José Saramago

"Se olharmos as coisas de perto, na melhor das hipóteses chegaremos à conclusão de que as palavras tentam dizer o que pensámos ou sentimos, mas há motivos para suspeitar que, por muito que procurem, não chegarão nunca a enunciar essa coisa estranha, rara e misteriosa que é um sentimento."

José Saramago, in Nas Suas Palavras

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Prémios de Ilustração (New YorK Times)


(A Sick Day for Amos McGee, de Philip Stead, com ilustrações de Erin Stead, ou as dificuldades de assistir um Rinoceronte Constipado no Zoo);

(Shadow, criado e ilustrado por Suzy Lee é uma demonstração do papel do ilustrador para contar histórias diferentes onde o leitor remexe as páginas de formas diferentes e com isso dá animação aos objectos que uma criança usa no seu sótão. Os objectos e as suas sombras animam esta história).

(Here Comes The Garbage Barge, escrito por Joanh Winter e ilustrado por Red Nose Studio dá-nos a história de uma barcaça que vê recusada a possibilidade de levar o seu lixo para casa e assim se inicia uma atitude de reciclagem).
(Subway, escrito e ilustrado por Christopher Niemann dá-nos uma visita ao metro de Nova Iorque, às suas figuras e ambientes).

Alguns dos dez livros que em 2010, o New YorK Times, através do Book review escolhe anualmente como os melhores livros ilustrados. Para uma observação mais detalhada. Aqui

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Do País dos Castanheiros

(...) Vinde, porque é de mosto
O sorriso dos deuses e dos povos
Quando a verdade lhes deslumbra o rosto.

Houve Olimpos onde houve mar e montes.
Onde a flor da amargura deu perfume.
Onde a concha da mão tirou das fontes
Uma frescura que sabia a lume.

Vinde, amados senhores da juventude!
Tendes aqui o louro da virtude,
A Oliveira da paz e o lírio agreste...

E carvalhos, e velhos castanheiros,
A cuja sombra um dormitar celeste
Pode tornar os sonhos verdadeiros.

Miguel Torga, «Libertação»

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Popville



Ainda fresquinho, o novo livro editado pela Bruáa, Popville é um projecto muito interessante e original para revelar os pormenores espaciais e organizacionais de uma cidade. Um livro diferente onde podemos ver as transformações do espaço pelo tempo, onde as cores são também elas contadoras dessa história. Joy Sorman, completa com simplicidade, as ilustrações magníficas de Anouck Boisrobert e Louis Rigaud fazendo do projecto uma viagem de grande significado.



terça-feira, 9 de novembro de 2010

(Foi há vinte e um anos. Por ele lutaram, viveram e morreram gerações de homens e mulheres que acreditavam na liberdade individual como forma e expressão do desenvolvimento humano e como este é inseparável de uma igualdade cultural e social.

É hoje quase um vestígio do que foi a História da Europa e do Mundo, mas é ainda uma lição para os que se esquecem de como os movimentos sociais são desenvolvidos e alimentados pelos sonhos individuais.

Uma lembrança para uma Europa em decadência acelerada das instituições, onde o seu modelo civilizacional está hipotecado aos créditos bancários dos que dominam a economia da produtividade, mesmo que em horizontes autoritários, estranhos ao vínculo transformador dos direitos humanos.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Cecília Meireles

Repara na canção tardia
que timidamente se eleva,
num arrulho de noite fria.

O orvalho treme sobre a treva
e o sonho da noite procura
a voz que o vento abraça e leva.

Repara a canção tardia
que oferece a um mundo desfeito
sua flor de melancolia.

É tão triste, mas tão perfeito,
o movimento em que murmura,
como o do coração no peito.

Repara na canção tardia
que por sobre o teu nome, apenas,
desenha a sua melodia.

E nessas letras tão pequenas
o universo inteiro perdura.
E o tempo suspira na altura

por eternidades serenas.


Cecília Meireles, «Serenata», in Da Viagem (1939)
Imagem, in folhademinasgerais.blogspot.com


(Será destacada como o autor do mês nas Bibliotecas do Agrupamento durante o mês de Maio. Nos cento e nove anos do seu nascimento, uma simples evocação de uma das grandes poetisas do século XX).

Transparências da Alma - Apresentação na EB 2, 3 Mem Ramires


Escrever não é fácil. Escrever poesia é muito difícil. Mostrar a poesia que se escreve é, além de delicado, um acto de coragem. Mas a coragem, a força, o ânimo, o entusiasmo e o arrojo só são possíveis quando algumas pessoas estão ao nosso lado. E foi graças a essas pessoas que este livro nasceu! Das palavras do seu autor vê-se o seu retrato, porque nelas estão espelhadas várias situações vividas em diferentes fases de uma vida bem cheia. Das palavras do seu autor nasceu este livro de poemas que mais não são do que fragmentos de memória, pedaços da sua própria existência, transparências da sua própria alma.

É, pois, através da palavra poética que o autor se mostra: despido de vergonha, ausente de receios, capaz de mostrar aquilo que ao longo de toda uma vida foi guardando nos mais diversos suportes de escrita.

Neste livro que agora nasce, nasce também um libertar dos sonhos, pois é de diferentes temáticas que este livro vive: do sonho, do medo, da morte, da natureza, da ausência, do amor, em suma, da vida!

José Luís Cordeiro apresenta na próxima quarta-feira, no auditório da  EB 2, 3 Mem Ramires, pelas dezoito horas o seu recente livro Transparências da Alma. É um escritor natural de Santarém, com formação em Línguas e Literaturas Modernas, sendo igualmente professor de Língua Portuguesa no Agrupamento de Escolas José Relvas, em Alpiarça, onde desenvolve – em parceria com outro docente – um projecto de escrita criativa e lúdica.

Aqui deixamos o convite para conhecer pela sua voz este escritor e as suas palavras.

domingo, 7 de novembro de 2010

Uma Música (para o António Sérgio)


(Um ano sem a sua sábia gravidade nas linhas do éter onde nos acompanhou por vastos séculos de sonhos. Uma música a quem tantas nos deu em incontáveis noites de improviso.)


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Sophia - Autor do Mês de Novembro

«Há na casa algo de rude e elementar que nenhuma riqueza mundana pode corromper, e, apesar do seu halo de solidão e do seu isolamento na duna, a casa não é margem mas antes convergência, encontro, centro. Quem nas janelas do corredor olha para fora e vê o muro de granito, as árvores na distância e os telhados a oeste, aquilo que vê aparece-lhe como um lugar qualquer da terra, como um acidente, um lugar ocasional entre o acaso das coisas.

Mas quem do quarto central avança para a varanda e vê, de frente, a praia, o céu, a areia, a luz e o ar, reconhece que nada ali é acaso mas sim fundamento, que este é um lugar de exaltação e espanto onde o real emerge e mostra o seu rosto e a sua evidência. Pelo gesto de dobrar o pescoço e de sacudir as crinas, as quatro fileiras de ondas, correndo para a praia, lembrando fileiras brancas de cavalos que no contínuo avançar contam e medem o seu arfar interior de tempestade.

O tombar da rebentação povoa o espaço de exultação e clamor. No subir e descer da vaga, o universo ordena o seu tumulto e seu sorriso e, ao longo das areias luzidias, maresias e brumas sobem como um incenso de celebração. E tudo parece intacto e total como se ali fosse o lugar que preserva em si a força nua do primeiro dia criado.»

Sophia, «A Casa do Mar», in Histórias da Terra e do Mar

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Uma Ideia...

via, havidaemmarta.blogspot.com

Sôbolos Rios Que Vão

(É um livro difícil, um pouco como a aventura humana. Dá-nos o filme da precaridade da vida, das diferentes formas do ser em cada um de nós, entre o que somos, o frio que em momentos inesperados sofremos e os perfumes, as árvores, os momentos de felicidade que se conjugam entre o que foi vivido e o que se respira.

É um livro que ultrapassa a Literatura, porque nos concede os fragmentos da vida de quem passou pela aventura de bater às portas da doença e das suas mais terríveis consequências. É um livro que nos faz interrogar sobre as nossas delicadas limitações.

É um livro, um grande livro, onde nos confrontamos a nós próprios e às nossas limitadas ambições de eternidade. Um livro acima de uma história, de uma ficção, revelando-nos a solidão, a enfermidade e a coragem de ser humano. Talvez, o melhor livro de António Lobo Antunes).

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

António Lobo Antunes

Sobre os livros e a vida
«É curioso isto, porque é e não é. É qualquer coisa que nos questiona, nos pergunta, que nos inquieta, que nos ajuda, que nos mostra a nós mesmos, que nos revela a aparição por debaixo da aparência. (...) Chegar ao interior dos interiores. Descer, onde estamos nós e os outros e nós no meio deles. Ao lermos um livro, estamos a ler uma pessoa também, seja qual for o livro.

Tenho a sensação que quando tenho o livro que eu gosto, estou em conversa com o autor do livro. Não sou só eu que o leio. Estamos lendo mutuamente e conversando e construindo um diálogo que se prolonga. Muitas vezes o livro só começa quando nós o acabamos de o ler e começa a fazer a sua viagem dentro de nós. Os grandes livros prolongam-se na nossa vida.

Os livros, os bons livros não trazem nem personagens, nem histórias. quanto muito a aparência de personagens e de uma história. Não existe profundidade. Há infinitas superfícies e dificilmente chegamos ao ponto central. Alcançamos um fragmento de um espelho. (...) A leitura foi sempre para mim um grande momento de alegria. uma fonte de auto-conhecimento, uma alegria e um deslumbramento, um espanto constante. (...)

«Tenho a impressão que há uma dor aqui no quarto, mas não sei se sou eu que a tenho» (C.Dickens). E até que ponto a dor é nossa, até que ponto a alegria é nossa, porque a nossa vida é feita de perguntas. Quando nós encontramos uma resposta, ela torna-se uma pergunta, que leva a outra pergunta, a outra pergunta. E diante da pergunta está o vazio, que eu espero seja preenchida por outra pergunta e outra pergunta.»


in, http//sicnotícias.pt (Jornal da Noite)