terça-feira, 17 de novembro de 2009

Leituras ...



«Com a ponta dos teus ramos chegarás à abóbada celeste e sacudirás o tronco invisível que sustém a lua, fazendo cair sonhos novos a nossos pés como flocos de neve tépida.» (1)


  É um livro raro. Uma prenda oferecida à imaginação, um conto de fadas onde todos, jovens e adultos podem descobrir em linhas de poesia o encanto e o deslumbramento.
  É um livro que nos conta a história de Jack. Um menino que nasce no dia mais frio de sempre e para poder viver recebe um relógio de madeira que é colocado no seu peito para ajudar a funcionar o seu coração. Jack sobrevive, mas o seu coração não sobreviverá às emoções mais fortes. O amor não lhe é recomendado, é mesmo um perigo, a maior das imprudências. Viverá ele então uma vida tranquila, isenta de perigo, cuidando do seu coração de madeira?
  Jack conhece uma pequena cantora de rua e o seu coração, o verdadeiro e o mecânico ficam deslumbrados. E ele não resiste. Viverá entre o sonho e a realidade, a imaginação e o quotidiano onde conhecerá a beleza, o encanto, mas também a crueldade do amor.
  É um livro lindo, único, onde revivemos a magia de nós próprios, esse País da Fantasia onde se mistutram sonhos e realidade. A Mecânica do Coração é uma abordagem imaginativa, fascinante a esse universo tantas vezes esquecido, mas que permite transcender a própria vida.
  Mecânica do Coração é uma aproximação para os adultos, a uma reconquista intemporal no sentido que Lewis Caroll fez para os mais jovens, em Alice nos País das Maravilhas. Um outro lado do espelho onde revivemos em personagens tão distantes e próximas, como Artur, Anna ou Luna a existência humana coberta pela ternura do sonho impossível. 
  Um livro a descobrir, a ler e a partilhar. Um livro para nos embalar e reconfortar «como uma lareira numa noite de Inverno», nas próprias palavras de Jack.


segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Os Melhores Livros Ilustrados de 2009

 A Book Review, desde 1952 organiza anualmente uma mostra crítica dos livros publicados para crianças em cada ano. O New York Times publicita nas suas páginas os dez mais, que são aqueles que no domínio da Literatura Infantil mais se destacaram.


Only a Witch Can Fly, escrito por Alison McGhee e ilustrado por Taeeun Yoo
(um poema ilustrado sobre o sonho de uma criança viajar na sua vassoura na noite do Halloween)



   Moonshot: The Fight of Apollo 11, livro da autoria de Brian Floca 
(um álbum ilustrado nos relata as dificuldades da viagem do Apollo11)



 The Odd Egg, livro escrito e ilustrado por Emily Gravett
 (uma divertida história em que um pato encontra um ovo de onde nasce um pequeno alligator) 



A Penguim Story, da autoria de Antoinette Portis
(uma aventura de pinguins na descoberta de novas cores e ambientes)



The Lion and The Mouse, de Jerry Pinkney
(Uma fábula já conhecida aqui com uma abordagem visual e sonora)



The Snow Day, de Komako Sakai
(as aventuras de um coelho ainda pequenino no momento em que ocorre um grande nevão) 



Tales From  Outer Suburbia, de Shaun Tan
(uma aventura por ambientes futuristas)



Eight Favorite Fairy Tales, de Lucy Cousins 
(uma abordagem colorida a desenhos clássicos)



White Noise, de David A. Carter
(uma proposta de abordagem ao cubismo e ao futurismo do início do século XX).



All The World, de por Liz Garton Scanlon e ilustrado por Marla Frazee
 (uma proposta de leitura que propõe uma viagem através de imagens e da poesia para nos conduzir por diferentes espaços e ambientes)
   

domingo, 15 de novembro de 2009

Sobre o Sonho de Um Jovem



«(...) Como um laço deslaça-se o meu ser
E nos meus olhos morrem as paisagens» (1)


   Um jovem de trinta e dois anos colocou fim à vida. Aqui o nome não é importante. 
  O facto imensamente triste permite-nos pensar um pouco sobre a angústia com que muitos seres humanos se defrontam na sua vida. Faz-nos meditar sobre a sociedade em que vivemos, os seus valores em que a humanidade está demasiadas vezes afastada dos que a governam e da convivência que se estabelece.
  A sociedade contemporânea evoluiu para uma forma de organização em que todos os indivíduos têm de estar sujeitos a um padrão. Padrão estabelecido superiormente por uma tecnocracia que constrói um Estado onde o cidadão deve ser um seu instrumento. Sociedade onde os valores espirutais se perderam em nome de um progresso onde a dúvida e a fragilidade de alguns não podem ser aceites.
  O valor da personalidade individual é ofuscada pelo padrão avaliativo, considerando as pessoas como simples máquinas. O cidadão pode hoje ser um instrumento de estruturas económicas, não uma pessoa capaz de com a sua personaliade contribuir para o desenvolvimento da sociedade. 
  É esta a angústia que leva alguns a perder o brilho numa sociedade sem alma, onde «os rios de frescura e os claros horizontes de pureza» (2) se perdem num rio vazio de sentido. A Robert Enke. 





(1) Sophia, in Coral, Caminho

Bienal de Ilustração de Bratislava


   A Bienal Internacional de Ilustração de Bratislava que terminou no passado vinte e seis de Outubro premiou alguns autores que  nos  últimos anos apresentaram álbuns dirigidos às crianças. Desde o Outono de 1967 que este evento tem lugar, como  forma de dar a conhecer os trabalhos que se realizam na área da ilustração de livros infantis.
  Este evento é patrocinado pela UNESCO, em colaboração com o IBBY (International Board on Books for Young People). 
  Na edição deste ano foi premiado com o Grande Prémio, Josep Antoni Tàssies Penella, com a obra "El niño perdido". 
   Para conhecer os restantes autores premiados basta aceder aqui.

«Luz de Papel»





 Yu Jordy Fu recria os tons da luz utilizando o papel e as suas diversas formas em várias dimensões. Com elas procura recriar os espaços em que convivemos. É uma nova forma de utilizar a luz e o candeeiro como um objecto que  permita ensaiar a imaginação em novos horizontes. 
 A criação de novos espaços num mundo em que se transformaram os modos de vida é uma proposta que alia o design e a arquitectura de modo a propor formas mais harmoniosas no quotidiano dos nossos dias. É notória a influência da arte chinesa no corte de papel e na utilização das suas sombras. 
 Um projecto imaginativo para a decoração das casas, mas também para ilustrar as diferentes facetas do quotidiano.
  Para conhecer melhor os trabalhos de Yu Jordy Fu, basta aceder aqui.

sábado, 14 de novembro de 2009

A Árvore Generosa



  Shel Silverstein escreveu nos anos sessenta um livro que se tornaria um dos clássicos da literatura infantil, A Árvore Generosa. É um livro que nos conduz essensialmente através das ilustrações, dando-nos uma mensagem simples e forte da dávida que a natureza permite ao ser humano. A Natureza, aqui personificada numa árvore oferece tudo a um menino, mesmo quando ele já em adulto a abandona.
  Além dos valores ecológicos que o livro transmite, apresenta à análise de quem o ler ou o proponha para uma leitura temas ou questões tão significativas como o passar do tempo, a amizade, o afastamento que o crescimento por vezes impõe a todos e o modo como cada um pode responder aos desafios que lhe são colocados.
  As imagens são aqui o elemento condutor de uma história que transmite importantes valores. Editado pela Bruáa é um livro a descobrir. E é ainda um livro que inspirou uma ideia realmente transformadora. Em diferentes locais do planeta a falta de água é um problema importante para a vida de muitas comunidades.
  Kin Hyo e Seol Ah Sun, designers imaginaram com sucesso uma forma  de conseguir água a partir do processo de evaporação das folhas das árvores. Este produto designado Savior Bud consegue em quatro horas absorver a quantidade de água suficiente para encher um copo de água. Brilhante. Quando a imaginação consegue transformar o quotidiano, mais reconfortante é o seu caminho



Ideia divulgada pela Editora Bruaá

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Memória de Sophia


     «Era uma vez uma quinta toda cercada de muros.
   Tinha arvoredos maravilhosos e antigos, lagos, fontes, jardins, pomares, bosques, campos e um grande parque seguido por um pinhal que avançava quase até ao mar.
   A quinta ficava nos arredores de uma cidade. O seu pesado portão era de ferro forjado pintado de verde. Quem entrava via logo uma grande casa rodeada por tílias altíssimas cujas folhas, de um lado verdes e de outro lado quase brancas, palpitavam na brisa.
   Era nessa casa que morava Isabel.
   Isabel nesse tempo tinha onze anos e por isso ia todos os dias da semana ao colégio, baloiçando a sua pasta cheia de livros ora numa mão ora na outra.
   Mas às quatro horas voltava para casa, lanchava a correr e saía para a quinta.

   Isabel não tinha irmãos e por isso sabia brincava sozinha e conversar com as árvores, com as pedras e com as flores.
   Todos os dias percorria a quinta. No Outono apanhava castanhas esmagando com o pé os ouriços verdes. No Inverno colhia violetas e camélias. Na Primavera trepava às cerejeiras para comer as primeiras cerejas doces, escuras e vermelhas. E também subia às árvores onde todos os anos havia ninhos, ninhos redondos feitos de ervas, folhas secas e penas e que tinham lá dentro quatro ovos vermelhos sarapintados de castanho. Caminhava entre o trigo que era como um doce mar, aéreo e leve. Às vezes passava horas a ler sob o caramanchão onde as flores lilases das glicínias pendiam em grandes cachos perfumados rodeados de abelhas. Ou caminhava devagar na luz verde do parque escutando o rumor das altas copas dos plátanos. E conhecia o lugar onde, escondidos entre as ervas e folhas, cresciam os morangos selvagens.»


Sophia, in A Floresta, Figueirinhas, págs. 5 e 6
Imagens, Katogi Mari, 
(Never, Forever e Through The Looking Glass)