sábado, 7 de novembro de 2009

Na Memória de Sophia - Biografia



   «Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessáriamente levado, pelo espírito da verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo (...) somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser.» (1)


  Nasceu justamente há noventa anos. É uma das grandes figuras da cultura europeia não só do século passado, mas de sempre. Nasceu no Porto a seis de Novembro de 1919, onde passou a sua infância. Mais tarde mudou-se para Lisboa onde fez os seus estudos universitários entre 1936 e 1939.
  Publicou os seus primeiros poemas em 1940, nos Cadernos de Poesia. Foi uma defensora dos direitos civis dos presos políticos durante o Estado Novo. 
 Escreveu diversos livros de poesia que se encontram publicados autonomamente na sua Obra Poética. Podemos destacar Livro Sexto, Coral ou no Tempo Dividido. 
Destacou-se na escrita de contos para crianças como A Fada Oriana, O Rapaz de Bronze, a Árvore ou a Floresta. Escreveu ainda ensaios e traduziu autores diversos, como Shakespeare ou Eurípedes da sua amada Grécia.
  Recebeu ao longo da sua vida vários prémios, como o Prémio Camões 1999 ou o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana em 2003. 
  Sophia deu-nos uma escrita de grande beleza, preocupada com os limites da existência humana, onde encontramos a simplicidade e o encontro com a Natureza, em especial o mar. Influenciada pela cultura grega, por esse mar de casas brancas, onde o sonho, a descoberta de novos horizontes está sempre presente.
  Com Sophia encontramos o deslumbramento pela palavra, onde a sensibilidade e a pureza tenta encontrar campos e horizontes de felicidade. As musas do mundo grego que tanto a inspiraram deram-nas nas suas palvras uma nova dimensão para o homem.
  Em momentos posteriores lembraremos aqui pela sua palavra a magia de Sophia, que soube afirmar a dimensão humana acima de qualquer tempo. Nos noventa anos do seu nascimento aqui fica a lembrança de quem soube exprimir o deslumbramento do nascimento:
«(..) Mostrai-me as anémonas, as medusas e os corais
       Do fundo do mar.
       Eu nasci há um instante.» (2)


(1) Sophia, «Posfácio, in Livro Sexto, Caminho 
(2) Sophia, in «Gráfico», in Coral, Caminho


Imagem, in portuguesaposeia.blogspot.com
   

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Leituras na Biblioteca ...




  «Deram ao Menino uma caixa de aguarelas. O Menino gostava de pintar pássaros, flores, casas, árvores, rios, montanhas e tudo o mais que lhe vinha à cabeça. Mas faltavam muitas cores na caixa de aguarelas.
   Um dia, o Menino quis pintar um submarino no fundo do mar. À volta do submarino havia algas azuis, verdes, roxas e vermelhas.
  Mas o Menino queria que houvesse também algas alaranjadas. Ficariam bem a ondular, ao lado das algas azuis e verdes. 
Que pena a caixa de aguarelas não ter cor-de-laranja! Como se faria? Que outras cores se devia misturar para conseguir cor-de-laranja?» (1)


  António Torrado recebeu em 1980 o Prémio Calouste Gulbenkiam de Literatura para Crianças por ter sido considerado o melho texto publicado em 1978/79.


 (1)António Torrado, in Como se faz cor-de-laranja
(10ª edição, Edições Asa, páginas 9-10)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Solidariedade




  A Gsolidário é um projecto da Google que procura juntar num motor de busca a possibilidade de todos os que utilizam o espaço de comunicação da Internet darem o seu contributo para instituições de solidariedade social. Ao realizarem-se pesquisas neste motor de busca fica-se com acesso a diversas instituições e aos seus projectos, cujos cliques permitem a constituição de um fundo monetário. A cada cem euros realizados eles são encaminhados para uma das instituições.
  Todas as instituições que integram o projecto têm o estatuto de IPSS, ou estão a elas equiparadas ou podem ter o estatuto de ONGD (Organizações não-governamentais de Desenvolvimento). Na página do motor de busca encontra-se um acesso a todos os que queiram saber mais.
  Para definir o gsolidário como motor de busca basta clicar aqui.
   


Apresentar um Livro - Profª Josefina Ferreira



    Ainda Alice,  Lisa Genova


    Foi dos últimos livros que li.
  Este tema é para mim pessoalmente muito próximo e gostava de partilhar que gostei muito deste livro, porque apesar de conviver de perto com a doença, nunca sabemos bem o que pensam estes doentes. Quem sabe pouco ou não sabe nada ou acha que sabe muito sobre a doença, por favor leia este livro!!!
  O mundo de Alice é perfeito. Professora numa conceituada universidade, é feliz com o marido, os filhos, a carreira. E tem uma mente brilhante, admirada por todos, uma mente que não falha... Um dia, porém, a meio de uma conferência, há uma palavra que lhe escapa. É só uma palavra, um brevíssimo lapso. Mas é também um sinal de que o mundo de Alice começa a ruir. Seguem-se as idas ao médico, e por fim, a certeza de um diagnóstico terrível. 
Aos poucos, Alice vê a vida fugir-lhe. Amada pela família, unida à sua volta, é ela que afasta, suavemente arrastada para o esquecimento, levada pela doença de Alzheimer.
  Ainda Alice é a narrativa trágica, dolorosa, de uma descida ao abismo, o retrato de uma mulher indomável, em luta contra as traições da mente, tenazmente agarrada à ideia de si mesma, à memória de uma vida e de um amor imenso.
  Ainda Alice é o nome de um novo romance que retrata a vida de sucesso de uma professora universitária, até ao momento em que é diagnosticada com a doença de Alzheimer.
   Este livro recebeu o  Prémio Brontë 2008 e é uma obra de Lisa Genova. A autora é formada em Psicologia e doutorada em Neurociências por Harvard. Foi ainda investigadora em áreas como a depressão, a doença de Parkinson e a perda de memória. O seu interesse pela doença de Alzheimer começou quando a sua avó mostrou os primeiros sinais da doença. Interrogando-se sobre como se sentiriam as pessoas que a vivem, vendo o mundo desagregar-se à sua volta, decidiu escrever este romance.
   A venda de cada exemplar do livro reverte um euro para a Alzheimer Portugal.

Memórias de Livros



«A escola. A flor. A escola...
- Godofredo me contou uma coisa muito feia de você, Zézé. É verdade?
Balancei a cabeça afirmativamente.
- Da flor? É, sim, senhora.
- Como é que você faz?
- Levanto muito cedo e passo no jardim da casa do Serginho. Quando o portão está só encostado, eu entro depressa e roubo uma flor. Mas lá tem tanta que nem faz falta.
- Sim. Mas isso não é direito. Você não deve fazer isso. Isso não é um roubo, mas já é um «furtinho».
- Não é não, D. Cecília. O mundo não é de Deus? Tudo que tem no mundo não é de Deus? Então as flores são de Deus também...
Ela ficou espantada com a minha lógica.
- Só assim eu podia, professora. Lá em casa não tem jardim. Flor custa dinheiro ... E eu não queria que a mesa da senhora ficasse sempre de copo vazio.
Ela engoliu em seco. (...)
- Você vai prometer uma coisa, porque você tem um coração maravilhoso, Zezé.
- Eu prometo, mas não quero enganar a senhora. Eu não tenho um coração maravilhoso. A senhora diz isso porque não me conhece em casa. (...)
- De agora em diante não quero que você me traga mais flores. Só se você ganhar alguma. Você promete?
- Prometo, sim senhora. E o copo? Vai ficar sempre vazio?
- Nunca esse copo vai ficar vazio. Quando eu olhar para ele vou sempre envergar a flor mais linda do mundo. E vou pensar: quem me deu essa flor foi o meu melhor aluno. Está bem?
Agora ela ria. Soltou as minhas mãos e falou com doçura.
- Agora pode ir, coração de ouro ...»


José Mauro de Vasconcelos, O Meu Pé de Laranja Lima,
(páginas 76-78), Edições Melhoramentos, 20ª edição

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

II Conferência Internacional Bibliotecas para a Vida


 O Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedade da  Universidade de Évora e a Biblioteca Pública da mesma cidade vão dinamizar a II Conferência Internacional «Bibliotecas para a Vida».
  Esta conferência terá lugar entre os próximos dias dezoito e vinte e um de Novembro e terá como temática central a Biblioteca e a Leitura.
  As Bibliotecas estão a ser sujeitas a uma profunda transformação, consequência do nascimento de redes sociais que colocam novas questões sobre a leitura, a mediação da mesma e os circuitos de divulgação da informação.
    A visita à Biblioteca Pública de Évora, à Biblioteca da Universidade de Évora e a diversas bibliotecas escolares faz parte do programa, culminando com a entrega do Prémio Nacional de Ilustração.
   Os interessados em participar nesta interessante reflexão sobre a leitura e as bibliotecas podem obter toda a informação disponível aqui.

Primeiro Dia de Aulas - Profª Margarida Rosado




   Era o meu primeiro dia da aulas!
  A minha mãe não me pôde acompanhar e o meu pai deixou-me junto do portão grande. Não pôde entrar comigo! Estava com pressa para o seu trabalho!
 A tiracolo levava uma pasta toda gira comprada na véspera, cinzenta e rosa com flores pequeninas... e no coração um nervoso miudinho!
 Quando entrei ao portão senti-me perdida! Tanto barulho, tanta correria, pais que acompanhavam os filhos e eu só!
 Encontrei umas colegas e senti-me mais amparada mas ao mesmo tempo aflita: gente, muita gente! A escola era grande, ninguém se entendia. Alguns meninos choravam e eu quase que também o fazia!   
  Tocou a campainha que mais parecia uma buzina de uma fábrica!
 Entraram de rompante pais e meninos. As Professoras já estavam lá dentro e o meu coração acelerava. O Polivalente encheu-se e eu senti o medo das «gentes». Instintivamente aconcheguei-me a uma colega, na esperança de sentir o conforto, a sua  calma e principalmente que o medo das pessoas desaparecesse. Comecei a respirar devagarinho, pois até aí eu resfolegava...
 A Directora fez a apresentação das professoras que ali trabalhavam e fez com que cada turma seguisse a sua professora até à sala onde pertenciam!
 As professoras começaram por ordem a juntar os pais e os meninos e a seguir por filas: primeiro A e lá iam para a sala com a professora à frente.
 Seguiu-se a minha vez. Eu pertencia ao primeiro B e segui a professora, tremendo nas pernas, indo atrás de mim, mais não sei quantos pais e meninos... a minha sala ainda por cima era no primeiro andar, sala dez. As pernas pareciam não querer andar, tremendo e eu sempre a respirar com mais força...
 Quando entrámos na sala sentei-me na mesa da frente e olhei para a professora! Já não era nova! Estava bem vestida e tinha um perfume bom, eu sentia-o...
 Começou a falar! Tinha uma voz sonante e forte! Olhei para trás e vi os outros meninos sentados e os pais em pé ao lado deles e eu só!  
 A professora distribuiu papéis, falou de horários, de regras a cumprir, de materiais a trazer e eu senti que havia pais que pareciam olhar desconfiados a professora. Mas ela até nem se tinha enganado em nada e de repente ouça-a dizer que já era professora há vinte e seis anos... meu Deus, pensei eu, afinal a professora até que devia ser boa professora, porque o pais dos meninos, ficaram calados e parece que acalmaram. Eu também acalmei um pouco!
 Senti que ter uma professora com tantos anos, devia ser uma coisa boa... pois já tinha ensinado muitos meninos! Deixei de respirar com tanta força e engraçado: a voz da professora baixou de tom e pareceu ser mais confiante! Comecei a gostar dela, mas ainda estava aflita com tanta gente dentro da sala dez. 
Parecia que a qualquer momento a sala se iria encolher e nós espezinharmo-nos... mas não! A sala não se mexeu... e eu sosseguei. O meu medo quase que tinha desaparecido... esperava ansiosamente pelas doze horas que era a hora que nós saíamos nesse dia...
  A professora falava, falava, falava... distribuía muita informação e eu alguma perdi-a, pois estava só! 
 Chegou o meio-dia e os pais continuavam a falar com a professora  perguntando muita coisa, até que nos mandou embora!

  De novo, com as minhas colegas saí do polivalente com tanta gente e tanto barulho e mais uma vez me senti só! É tão triste não ter pai nem mãe que nos leve à escola no primeiro dia de aulas! Só eu é que sei...


Imagem, in a outravoz.blogspot.com