segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Em redor de Sophia



"A coisa mais antiga de que me lembro é uma tarde de Primavera em que eu talvez ainda não tivesse nascido, pelo menos não me lembro de estar ali - só me lembro da claridade difusa daquele quarto em que a Primavera entrava. Uma calma infinita poisava sobre as coisas - como se fosse o princípio do mundo e tudo estivesse ainda intocado" (1)

É sem dúvida um dos acontecimentos do ano. O espólio de Sophia será doado depois de amanhã numa cerimónia pública pela família, sendo ao mesmo tempo inaugurada a mais completa exposição já feita sobre a autora de Coral, Dual, No Tempo Dividido, O Livro Sexto ou as Histórias da Terra e do Mar entre tantas outras.

A exposição estará disponível na Biblioteca Nacional, até ao fim do mês de Abril e nela será possível descobrir manuscritos, cadernos, textos, imagens, os espaços da imaginação onde deu forma a essa construção que Sophia fez da vida e da poesia, algo que ela própria definiu como "coisa sagrada". É um olhar privilegiado a essa escrita que nos deu "a arte como espaço de atenção". (1)

Ainda nesta semana, um colóquio internacional irá reflectir sobre as temáticas que envolvem a obra de Sophia. Para conhecer os detalhes, aceder aqui.


(1) Cadernos de Sophia, Exposição da Biblioteca Nacional, (http//www.bnportugal.pt)

Memória do Imperador Adriano

"Quase todos desconhecem igualmente a sua justa liberdade e a sua verdadeira servidão. (...) O que me interessava não era uma filosofia do homem livre, mas uma técnica: queria encontrar a charneira em que a nossa vontade se articula ao destino, onde a disciplina secunda a natureza em vez de a refrear. (...) A vida era para mim como um cavalo a cujos movimentos nos unimos, mas depois de o ter ensinado o melhor possível. (...)

Porque espero pouco da condição humana, os períodos de felicidade, os progressos parciais, os esforços de recomeço e de continuidade parecem-me outros tantos prodígios que compensam quase a massa enorme dos males, dos fracassos, da incúria e do erro. (...) As palavras liberdade, humanidade, justiça reencontrarão aqui e ali o sentido que temos tentado dar-lhes". (...)

Alguns homens pensarão, trabalharão e sentirão como nós; ouso contar com esses continuadores colocados a intervalos irregulares dos séculos, com essa intermitente imortalidade."(1)


(Na substância do tempo ele é já uma memória muito distante. Vivemos num tempo que emerge um continente onde o papel das ideias não parece ser suficiente para criar uma memória digna em tantos seres. Apenas o valor utilitário parece ser credível das acções e das opções, onde a preocupação solidária se afasta na contabilidade dos orçamentos tão afastados do coração das pessoas. Adriano uma das mais nobres figuras do Império Romano, onde ainda podemos aprender o que significa o governo da cidade, como espaço de sociedade.)

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

As eleições do dia 23 de Janeiro


«A democracia procura a igualdade na liberdade, o socialismo procura a igualdade na restrição e servidão.» (1)

Dentro de dois dias realiza-se a eleição para a presidência da República. É um acontecimento importante, apenas à nossa irrelevante dimensão de País onde a dignidade das pessoas, a sua felicidade e a sua decência são um apêndice sempre à espera da lucidez ausente. A formulação das sociedades democráticas estão pensadas desde o século XVII. Continuamos, todavia a esquecer o essencial de Montesquieu, Tocqueville ou dos que nos ensinaram que sem uma comunidade de pensamento e acção, a Democracia é só uma servilidade.

Pode um país existir, quando as que se julgam elites confundem a soberania da Nação, com os jogos de oportunidade políticas, calculando apenas os ganhos e nunca a ética das atitudes, os compromissos subscritos ou os valores defendidos?

Pode um País, como conjunto activo de pessoas e instituições ser, mais do que apenas existir, como um um projecto de sociedade que concebe afirmar-se, conceder oportunidades de crescimento e felicidade aos que nele habitam?

Pode um País merecer o presente das ideias novas que o podem fazer desenvolver, quando a palavra, o contrato eleitoral é irrelevante na representatividade da comunidade? O País que se observa nos celulóides, o que existe nos écrans de flahes rápidos, nos ousados comentários dos esclarecidos comentadores deu corpo a esta formulação de uma campanha vazia de ideias, ausente de valores críticos e despida de projectos.

O governo da cidade, não é, já não é uma formulação de princípios para o bem comum. Os agentes da Pólis actuam, convergem apenas por si próprios. Há uma imensa, gritante falta de asa de voo para regular os dias com esperança e dignidade. A realidade revela nesta latitude não ter imaginação para repensar o valor dos dias. Na manhã do dia vinte e quatro de Janeiro estaremos no exacto momento que a espuma dos dias vem reforçando. Um País ausente de si próprio.

Teremos sempre a nossa individualidade, a cultura expressa nas formas artesanais do pensamento e aquela certeza de que "quando um amigo nos traz amoras bravas, os muros das casas ainda parecem brancos e afinal reparamos que também aqui, no meu País o céu é azul."(2)

(1) Alexis de Tocqueville, Da Democracia na América
(2) Eugénio de Andrade, Antologia Poética

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Memória de Paul Cezanne


(Paul Cezanne, entre os impressionistas e os cubistas, um artista que nos deu a alegria da cor, uma abordagem de perspectiva que concedeu aos objectos, à composição uma dimensão nova. O volume do tempo que nos permitia uma oportunidade de entrarmos um pouco mais, um pouco melhor nessa absorção do azul e das brincadeiras quando a eternidade parecia à conquista do olhar).

Paul Cezanne, A Forest, in http://webmuseum.com

Na Memória de Eugénio


Também o deserto vem
do mar. Não sei em que navio,
mas foi desses lugares
que chegaram ao meu jardim
as palmeiras.
Com o sol das areias
em cada folha,
na coroa o sopro
ainda húmido das estrelas

Eugénio de Andrade, "Também o Deserto", in Antologia Poética
Imagem, Mikko Lagerstedt. Quite Morning, in http://www.1x.com

(Nos oitenta e oito anos do nascimento de Eugénio, um dos poetas da palavra e da emoção de as fazer renascer em inquietas «ilhas de fraterna ternura», como o salientou António Lobo Antunes).

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O escritor do mês de Janeiro - Miguel Torga

Não te sei dizer mais.
Depois de tantos versos,
Que te baste o silêncio
Dum poema ardente,
Que sempre, naturalmente,
Foi além das palavras
Do amor, amando.
Que, em cada beijo,
Selava os lábios que o namoravam.
Que aprendeu, a sofrer,
Que tudo acontecia
No acontecer.
Que, atá nas horas de evasão, sabia
Que a verdadeira vida vive-se a viver. (1)

(Dos últimos poemas de Torga, sempre a convicção do património natural do ser envolvendo os gestos mais firmes do que podemos ser. O homem que se apresentou como uma montanha no carácter, nos valores da liberdade, da imaginação dá-nos essa substância em ausentes dias de hoje, onde aquilo que seremos como Nação parece cada vez mais distante do que somos. O património, a terra, as pessoas em ausências comprometidas de vontade e de rasgo).

(1) Miguel Torga, «Bilhete», in Poesia Completa, Volume II

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Conheço um Escritor

A Revista Visão Júnior, em parceria com o Plano Nacional de Leitura e a Rede de Bibliotecas Escolares, iniciou já este mês a promoção do concurso “Conheço um escritor”, que se encontra aberto a todos os alunos do Ensino Básico, do 1º ao 9º Anos de escolaridade.

Iniciativa de promoção da leitura, da escrita e do conhecimento de autores importantes da literatura infantil e juvenil pretende ser uma oportunidade mais para a dinamização de actividades nas Bibliotecas Escolares relacionadas com a leitura, assim como o conhecimento mais alargado de autores e suas criações.

Esta iniciativa poderá ser realizada em duas vertentes, entrevista ou reconto, dramatização, texto bibliográfico. As melhores propostas serão publicadas mensalmente no sítio da Visão e na Revista Visão Júnior. Este mês inicia-se com Álvaro Magalhães e em Fevereiro Alice Vieira será a autora em destaque.

Para mais informações, aceder aqui.