quinta-feira, 4 de março de 2010

Alice... em diferentes olhares

Alice no País das Maravilhas é um dos livros mais marcantes da Literatura Infantil. Com ele Lewis Carroll resgatou o tempo mágico, único quando todos nós, ainda como crianças, sem os limites do crescimento e por isso da noção breve da vida, olhamos para o que amamamos com o coração à procura de dias limpos e felizes. A Ilustração é aqui também uma forma de interpretação. Alguns dos muitos exemplos da visão que cada um tem desse território único, O País das Maravilhas.

(Charles Folkard, 1929)

(Abelardo Morell, 1999)

(Edwin John Prittie, 1923)
(Nicoletta Costa, 2008)

(Imagens, daqui)

Leituras... Alice no País das Maravilhas


«Mas quando ela desapareceu, a irmã deixou-se ficar ali sentada, tranquilamente, de cabeça apoiada na mão, olhando o sol-poente e pensando na pequena Alice e em todas as suas aventuras maravilhosas, até que começou também a sonhar. (...)

Ali ficou sentada, de olhos fechados. Quase acreditou no País das Maravilhas, embora soubesse que, quando voltasse a abri-los, tudo regressaria à enfadonha realidade... Apenas o vento faria sussurrar a erva, e as águas do lago agitar-se-iam com o balouçar dos juncos... O tilintar das chávenas transformar-se-ia no tinir dos chocalhos, e os gritos estridentes da Rainha na voz do jovem pastor...

E os espirros do bebé, o silvo do Grifo e todos os outros estranhos ruídos dariam lugar (ela sabia-o) ao barulho confuso da azáfama que reinava no pátio da quinta, enquanto os mugidos do gado à distância substituiriam os soluços profundos da Falsa Tartaruga.

Por fim, imaginou como esta sua irmãzinha seria no futuro, quando fosse crescida; e como conservaria, já na idade madura, o coração simples e adorável da sua infância, e reuniria à sua volta outras crianças, cujo olhar se tornaria vivo e curioso ao ouvirem tantas histórias estranhas, talvez mesmo a história do sonho do País das Maravilhas, de há muitos anos; e como ela se sentiria no meio das suas tristezas simples e encontraria prazer nas alegrias igualmente simples, ao recordar-se da sua própria meninice e dos dias felizes de Verão.»

(A chegar aos cinemas, a adaptação de uma das mais importantes obras da literatura infantil. Justamente, Alice no País das Maravilhas é o livro que nos dá o olhar espantado, admirado de uma criança num território novo, deslumbrante, onde o seu coração simples viaja pelo sonho ao encontro de dias felizes).

Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas, págs. 125-126

quarta-feira, 3 de março de 2010

Leituras... Nocturno


«E ela, tão delicada, uma flor tão delicada que vai deixando um rasto de perfume no chão que pisa, no ar que a envolve e eu, sempre acanhado, desconfiado, limito-me a contemplá-la e a adormecer revendo o sombreado dos seus olhos. Preparo-me agora para lhe dizer adeus. (...)

Contudo, no seu rosto muito jovem, desenhavam-se os amplos traços de sofrimento. Não que tivesse rugas precoces, não! mas a sua atitude mais evidente, era triste. De estatura média, magro, pálido, cabelo castanho claro acobreado. Os seus grandes olhos cinzentos de expressão por vezes alheada, às vezes curiosa, mas sempre melancólicos, proporcionavam o mais inquietante olhar que se possa imaginar. Falava baixo. Gostava de se vestir com elegância e era muito, muito sedutor. (...)

Realmente, Fryc não gostava de grandes audiências. Preferia um salão com uma dúzia de pessoas, um bom recanto e nesse recanto, um belo piano e se fosse um Pleyel, tanto melhor. Gostava então de se sentar ao piano e, quando menos se esperava, começava a tocar, primeiro lentamente afagando as teclas, tomando-lhe o peso, calculando qualquer razão inatingível. (...)

Quero tocar sim, mas em espaços mais fechados, com pouca gente, quero tocar no sossego dum salão, na sombra dum candelabro, no recato da penumbra, quase esquecido. (...)

Tranquilamente improvisou.
Chopin era o fogo!
O calor dos sons, o impulso da música, os leques de mulher, agitação nas cadeiras, olhos húmidos, corações acelerados, música; ele abre e fecha os olhos, respira, vive, vibra, quase que salta, quase que cai, quase que saltam, quase que caem as pessoas nas cadeiras, vinte e dois anos, corpo franzino, alma de génio, admiração, beleza, elogios, exaltações, cansaço e um brilho especial que cobre todo o seu corpo, todo o seu rosto.
Terminou o concerto.»

segunda-feira, 1 de março de 2010

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Na Memória de Ruy Belo

E Tudo Era Possível
Na minha juventude antes de ter saído
de casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido.

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido.

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer.

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer.


Ruy Belo, in Homem de Plavra[s]
Imagem, in corpodepoema.blogspot.com

(Nos setenta e sete anos do nascimento de  um poeta importante do século XX, que nos seus breves dias nos trouxe a alegria das manhãs, como imagens do que soube conhecer.)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Evocar José Mauro de Vasconcelos

«Eu sorri cheio de dor, mas dentro daquela dor tinha acabado de descobrir uma coisa importante. (...) Dindinha uma vez dissera que alegria é um «sol brilhante dentro do coração». E que o sol iluminava tudo de felicidade. Se era verdade, o meu sol dentro do peito embelezava tudo...» (1)

Os livros são territórios que nos permitem alcançar com mais facilidade a imaginação e com eles encontramos o modo como em tempos diferentes a infância foi olhada pela sociedade no seu conjunto. Neste sentido a literatura é assim uma fonte para o estudo desse «território desconhecido», nas palavras de Helena Vasconcelos.

O Meu Pé de Laranja Lima é uma incursão pela pobreza, pela incompreensão vivida pelo mundo adulto num determinado tipo de sociedade, mas acima de tudo é uma demonstração de um mundo infantil com as ferramentas do sonho, da ternura, capaz de tornar o real mais suportável. A apreensão de um mundo infantil povoado de sonhos poucas vezes nos trouxe tão emocionados para a nossa dimensão humana.
Este desencontro com a felicidade é um campo onde as sociedades contemporâneas e a literatura coincidem pela dimensão que a própria criança readquiriu em relação a sociedades passadas.

José Mauro de Vasconcelos, que aqui evocamos nos noventa anos do seu nascimento, escreveu um livro que no seu próprio tempo foi um sucesso pela sensibilidade com que apresentou os dilemas da existência de uma criança, que também o era de uma sociedade concreta. De origem humilde, exerceu diferentes profissões em diferentes locais, escritor de grande sensibilidade com uma narrativa simples e original, escreveu entre outros, Banana Brava (1942), Rosinha minha canoa (1962), O Palácio Japonês (1969), O Veleiro de Cristal (1973) e O Meu Pé de Laranja Lima que foi publicado em 1968. Se há livros que nos relembram as tardes em que se iniciava a leitura do mundo, nos sabores da distante infância este é um deles.

(1) José Mauro de Vasconcelos, O Meu Pé de Laranja Lima

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A Voz da escrita ... na Póvoa


Na cidade natal de Eça, iniciou-se ontem a 11ª edição de uma das mais importantes manifestações culturais ligadas à palavra e à representação da voz individual. Iniciada sob a inspiração de Agustina Bessa Luís, decorre até dia vinte e sete deste mês, Correntes de Escritas, com dezenas de actividades, encontros, palestras, convívio em redor das imagens que dão cor às páginas dos livros.
A decorrer na Póvoa, este quase milagre de promoção das ideias à volta de diferentes autores, com a persistência de quem acredita na cumplicidade da palavra. Com visionamento de documentários, discussão de ideias a partir da leitura de versos de Alberto Caeiro, «Passo e fico com o universo», ou ainda a apresentação de novos livros ou o reconhecimento de diversos autores, finalistas do Prémio Literário Casino da Póvoa, Correntes de Escritas é o grande momento das Letras e da sua promoção neste País.
Aos interessados, da vasta e variada programação, a ocorrer na Póvoa, ver aqui.