domingo, 17 de janeiro de 2010

Memória de Torga

«Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.

De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado, vai colhendo
ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.» (1)

Partiu há já quinze anos, no mês frio de Janeiro, um poeta que com as suas palavras nos soube devolver as particulares circunstâncias de cada um e a universalidade do sonho. Viveu uma aventura aqui, na luta incansável do «amor, da verdade e da liberdade», nas suas próprias palavras e transportou nas suas páginas, as cores difíceis e ternas de um território único. Poucas vezes um poeta soube incorporar na sua pele uma geografia tão evidente de grandeza e humanidade. Justamente Miguel Torga.
Dele, disse Eugénio:

«(...) É muito tarde para as lentas
narrativas do coração.
o vento continua
a tarefa das folhas:
cobre o chão de esquecimento.
Eu sei: tu querias durar.
Pelo menos durar tanto como o tronco
da oliveira que teu avô
tinha no quintal. Paciência,
querido, também Mozart morreu.
Só a morte é imortal» (2)

Imagens, in mardepedra.blogspot.com/Trás-os-Montes (Montouto-Vinhais)
(1) Miguel Torga, Sísifo, in MIguel Torga Diário XIII
(2) Eugénio de Andrade, «Nao Sei», in saldalingua.worpress.com

sábado, 16 de janeiro de 2010

AMI - Solidariedade com o Haiti


Lisboa, 14 de Janeiro de 2010

Caros Amigos,

Na sequência do terramoto que devastou o Haiti, partiu esta manhã uma primeira equipa de dois elementos da AMI, com destino à capital do País - Port-au-Prince, tendo-se disponibilizado uma verba de vinte mil dólares a utilizar na aquisição de água, medicamentos, desinfectantes e outro material de primeira necessidade.

Esta equipa tem como missão efectuar o levantamento de necessidades , coordenar acções de emergência com os parceiros locais e outros actores internacionais para desenvolver uma acção humanitária concertada e mais eficaz e preparar a chegada de uma equipa médica voluntária da AMI.

Entretanto, está já pronta a partir, de Lisboa, a equipa médica de 3 a 5 elementos, assim que estiverem reunidas condições para chegar rapidamente ao terreno e começar de imediato a trabalhar.

Num País onde 53,9% já vivia em situação de pobreza extrema, disponde de 1 dólar por dia, e 46% dos seus 8 milhões de habitantes não tinham acesso a água potável, actualmente toda a ajuda eficaz é pouca, não podendo a AMI, de forma alguma, ficar indiferente.

A população do Haiti precisa urgentemente de todo o nosso empenho e para isso precisamos do seu contributo para a aquisição de mais medicamentos , material de penso e sutura, e todos os meios que vierem a ser necessários para prestar ajuda directa e sem demoras às vítimas que sobreviveram a esta catástrofe de dimensões dantescas.

Pode efectuar o seu donativo para a AMi para:

Conta Emergência BES - NIB: 0007 001 500 400 000 00672

Multibanco: Entidade 20909 Refª 909 909 909 em Pagamento de Serviços

Pode ainda colaborar, reencaminhando este apelo a todos os seus contactos.

Contamos com a sua participação para que a população martirizada do Haiti retome alguma esperança num futuro possível.

Obrigado.

Fundação AMI

Fernando Nobre
Presidente
in, http://www.ami.org.pt

(Os acontecimentos do Haiti são de uma imensa tragédia humana e é essencial fazer o possível para a reposição de um quadro mínimo de dignidade. É certo que muitas vezes não sabemos se os donativos para acudir a situações de profunda gravidade chegam ao seu destino. Mas não é este o caso. Se há Instituição que merece o nosso respeito e admiração é a AMI, dirigida por um homem com um pleno sentido da solidariedade entre os homens, acima das limitadas divisões sociais e políticas).

Para acompanhar o esforço da AMI nesta campanha de solidariedade no Haiti. Daqui.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O Meu Primeiro Miguel Torga


  «Comiam todos o caldo, recolhidos e calados, quando o menino disse:
  - Sei um ninho!
 A mãe levantou para ele os olhos negros, a interrogar. O Pai, esse, perdido no alheamento costumado, nem ouviu. Mas o pequeno, ou para responder à Mãe, ou para acordar o Pai, repetiu:
  - Sei um ninho!
  O velho ergueu finalmente as pálpebras pesadas,e ficou atento, também.
 A criança, então, um tudo-nada excitada, contou. Contou que à tarde, na altura em que regressava a casa com a ovelha, vira sair um pitassilgo de dentro dum grande cedro. E tanto olhara, tanto afiara os olhos para a espessura da rama, que descobrira o manhuço negro, lá no alto, numa galha.
 A Mãe bebia as palavras do filho, a beijá-lo todo com a luz da alma. O Pai regressou ao caldo.
 Mas o menino continuou. Disse que então prendera a cordeira a uma giesta e trepara pela árvore acima.
 De novo o Pai levantou as pálpebras cansadas, e ficou tal e qual a Mãe, inquieto, com a respiração suspensa, a ouvir.» (1)
A D. Quixote na colecção O Meu Primeiro/a, deu-nos no fim do ano de dois mil e nove, um livro de grande beleza. Um objecto onde todos, iniciados e os que ainda não descobriram o universo maravilhado de um poeta único da nossa cultura, justamente Miguel Torga, podem aceder em páginas de encanto.
 João Pedro Mésseder escreveu o texto que nos apresenta os traços essenciais e profundos da vida do poeta do reino maravilhoso. Palavras de simplicidade gratificante, que chegamos a pensar que Torga foi sempre uma criança, um menino atrás da descoberta do mundo.
 Inês Oliveira confirmou na graça e simplicidade esse olhar de quem pela vida transportou os pássaros, as árvores e o ar da montanha onde reconheceu a liberdade como característica inseparável da humanidade.

(1) João Pedro Mésseder, O Meu Primeiro Miguel Torga, Dom Quixote
Imagens, in http://www.inesoliveira.net

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Autor do Mês na Biblioteca


«Envolvidas numa redoma de saudade que nunca foi quebrada, as impressões infantis guardam toda a pureza de um amanhecer sem ocaso. Intemporal e mítica, a paisagem geográfica é nos meus sentidos uma perpétua miragem; quanto à outra, à humana, tais virtudes lhe descubro, que parece que só junto dela sou gente». (1)

É o autor do mês de Janeiro, na Biblioteca. Não é fácil falar em breves linhas de um homem que comprova como poucos, muito poucos a grandeza do ser, numa gramática onde a geografia e a alma das pessoas foram o alimento das suas palavras. Se bebeu nas fragas e penhascos os tons da liberdade por que lutou toda a sua vida, ele próprio foi uma montanha, na dureza e na contemplação do calor humano que nele transbordaram.

Miguel Torga é um pseudónimo criado para as letras numa homenagem a duas figuras maiores da cultura universal, Miguel de Unamuno e Cervantes e naturalmente a referência sempre presente ao espírito bravio (torga é uma espécie de urze que cresce e resiste entre as rochas) que lhe esteve sempre presente.

Torga apresenta-nos nas suas páginas o relevo e a pele desse Reino, a que ele chamou Maravilhoso, onde os olhos do espanto e o coração decidido possam conhecer um mundo diferente, especial e único, Trás-os-Montes. A sua obra é muito variada e abarcou a poesia, o conto, o romance eas memórias.Fundou várias revistas literárias e da sua extensa produção literária podemos destacar Os Novos Contos da Montanha, A Criação do Mundo, a sua Poesia e os Diários. A sua obra encontra-se traduzida em diversas línguas e foi premiada pela beleza e lucidez do seu canto.

Miguel Torga representa na dimensão humana o carácter duro, ma solidário, frontal, mas apaixonado por uma consciência em que os valores permanecem pela liberdade e dignidade do homem. Há nas suas palavras um encanto silvestre e a originalidade de um espaço único, especial, o maravilhoso.

A sua obra, a sua figura são a morada de um tempo quase eterno onde a montanha faz nascer a liberdade e a beleza. As palavras de Torga são uma consagração da geografia sobre o tempo, quando neste País as suas palavras eram, à semelhança de outros pouco aproveitadas na sua transformação.

No País cinzento de Salazar um homem desda grandeza ficou encerrado no seu património criativo. Quando tantas vezes procuramos compreender o atraso cultural e de cidadania que nos atinge, é importante compreender esta sangria que demasiadas vezes o poder político tem feito na cultura. As palavras de Torga e o seu grito pela liberdade são uma inspiração e estão acima das limitações do tempo.

(1) Miguel Torga, Diário VII, 3ª edição, Coimbra

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Eric Rohmer


  Eric Rohmer foi um cineasta que ontem deixou de pertencer ao mundo em que procurou analisar os aspectos mais contraditórios da natureza humana. Fez parte do núcleo mais importante do cinema francês que na 2ª metade do século XX formou a chamada Nouvelle Vague e de que faziam parte nomes tão importantes, como Jean-Luc Godard, François Truffaut, Claude Chabrol, entre outros.
  O cinema de Rohmer procura apresentar uma narrativa, sem efeitos especiais, onde a palavra assume uma especial importância. Palavras onde se expressam as escolhas e as indecisões das personagens eram os seus principais ingredientes. O cinema como espelho da vida, onde as noções morais influenciam as escolhas e o sentido de encontro, da felicidade. Na Nuit Chez Maud, The Green Day ou L'Ami de Mon Amie são alguns dos seus trabalhos.
  Certamente que não foi o cinema mais fantástico nas audiências e na espectacularidade da acção, sobretudo em tempos de grande dislumbre tecnológico, mas teve o mérito de criar admiradores por esta interrogação contínua que é a vida. Constitui-se uma reserva cultural da cinematografia europeia, quando a sétima arte é há muito inundada pelos produtos vindos do outro lado do Atlântico. 
  Compreender o homem numa dimensão acima da biologia, da psicologia, tentando criar um lugar afectivo, capaz de recriar a realidade quotidiana, foi a temática de uma obra cinematográfica que vale a pena conhecer e evocar pela sua memória.
  

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A Um Jovem Poeta

Procura a rosa
Onde ela estiver
estás tu
fora de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê. (1)

Manuel António Pina, um dos escritores mais interessantes da actualidade vai ter um Ciclo que relembra a sua obra, com um conjunto de iniciativas, patrocinadas pela Câmara Municipal da Guarda. A decorrer entre dezasseis e vinte de Janeiro, na mais alta cidade do Continente, contará com colóquios, representações de peças de teatro, exposições temáticas sobre a ilustração e o seu percurso bio-bibliográfico. Para conhecer melhor o programa deste ciclo, aceder aqui.

(1) Manuel António Pina, in Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança


domingo, 10 de janeiro de 2010

Tintin


 Há justamente oitenta  e um anos nascia no suplemento de um jornal diário, «Le Vingtiéme Siécle», uma das figuras mais populares da BD do século passado, Tintin. Criado por Hergé e publicado pela primeira vez a dez de Janeiro de 1929, é uma figura que preencheu o imaginário de sucessivas gerações de «jovens». 
 Tintin, na figura de um jornalista, acompanhado pelo seu cão Milu parte para na sua primeira aventura, para a distante Rússia, tendo o primeiro álbum o nome de «Tintin no País dos Sovietes». Álbum que teve um imenso sucesso, mesmo nas reedições mais tardias. Este primeiro álbum fazia o retrato de uma sociedade cruel nos seus fundamentos. Sem ter sido feito com essa noção, acabou por dar uma ideia do que seria a Rússia, como sociedade humana, em longos anos do século passado.
 Mais de vinte álbuns sucederam a «Tintin no País dos Sovietes». Os Álbuns de Hergé eram desenhados como imenso profissionalismo, com recurso a uma equipa que estudava história, geografia, arqueologia, ciência no sentido de que as aventuras de Tintin se enquadrassem do melhor modo em diferentes temas e locais.
 Figura acompanhada por personagens igualmente originais, como sejam o capitão Haddock, os detectives Dupond, o professor Girassol, trouxe aos seus leitores diferentes geografias e formas de existência na sociedade humana, sempre com uma perspectiva de aventura e da descoberta.
 Tintin não é só uma BD com interessantes e bem desenhadas tiras, mas uma figura que nos ilustra  um período e uma atmosfera da história europeia quando os jornalistas tinham a nobre tarefa de conhecer outras culturas, divulgar essa informação, como suporte de um desafio ao serviço de ideais. Tintin é o reflexo desse espírito que procurava conhecer, aventurar-se pelo desconhecido, numa Europa que ainda procurava conhecer o mundo. 
 Em Lisboa, há alguns meses, o nosso herói também já tem uma loja que expõe para os seus admiradores não só a sua obra, mas o seu imaginário. Em Fevereiro a Biblioteca irá dinamizar uma exposição relativa a Hergé e à sua original criação.


Imagen, in kenwilsonelt.wordpress.com