domingo, 6 de dezembro de 2009

Festa da Poesia



  Desde ontem e  até dia oito de Dezembro decorre em Matosinhos na Biblioteca Florbela Espanca e nos Paços do Concelho daquela cidade, uma Festa de Poesia onde decorrerão actividades que irão juntar escritores, músicos  e ilustradores. 
  João Pedro Mésseder, José Jorge Letria, Sam The Kid, Jorge Palma, ilustradores, oficinas de arte, uma exposição de ilustração baseada no conto russo «A minha mãe é a mulher mais bela do mundo», e a declamação de poesia por actores diversos são algumas das ideias do programa, que pode ser consultado. Aqui.

sábado, 5 de dezembro de 2009

AMI - A Luz da Sabedoria



«... Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura (...)» (1)


   Um blogue de uma Biblioteca deve ser, também um espaço de cidadania, no seus aspectos mais combativos pelo valor humano, e também dar um olhar, simples pinceladas de pessoas que conseguem na sua vida revelar-nos como esta é uma só Humanidade, feita de olhares diferentes. A confirmação de que além dos horizontes e das geografias, são as pessoas, o que realmente importa.
   Fernando Nobre dispensa apresentações. Fundou justamente há vinte e cinco anos a AMI, Ajuda Médica Internacional. Com esta ideia tem ajudado a diminuir o sofrimento e as mais evidentes carências de pessoas que em diferentes partes do mundo são atingidas por catástrofes naturais ou vítimas da accção desumana que o homem em tantas locais desprotegidos pratica. Viaja pelo mundo, entre continentes de órfãos e famintos, onde tenta resgatar vidas de um mundo tantas vezes absurdo.
   Olhando para estes continentes de sorrisos desolados parece-nos que esta miséria humana está tão longe dos portões com que abrimos os dias. Nas suas missões, nas suas palavras, nas suas ideias descobrimos que ele faz parte de uma galeria muito restrita que olhando para o mundo, parece já o ter compreendido há muito em abraços de gentileza e simpatia.
   Olhando para o seu exemplo, para a sua visão de uma dimensão humana da vida, as palavras de Natália Correia parecem ajustadas a estes raros que sabem amar o mundo.


«Creio nos anjos que andam pelo mundo,(...)
Creio nas lendas, nas fadas, (...)

Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,



Creio nos deuses de um astral mais puro
Na flor humilde que se encosta ao muro(...),


Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o amor tem asas de ouro. Ámen
.
» (2)



Para um melhor conhecimento e participação cívica do Projecto da Ami, basta aceder neste link.
Os passos de Fernando Nobre no seu blogue. Aqui


(1) Alberto Caeiro, O Guardador de Rabanhos
(2) Natália Correia,« Ó Véspera do Prodígio IV», in Sonetos Românticos


Imagens, in http://fernandonobre.blogs.sapo.pt/

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Na 4ª Edição da Ilustrarte


Isabelle Vandenabeele, ilustradora belga venceu a quarta edição da Ilustrarte, Bienal de Ilustração para a Infância, com três xilogravuras inspiradas na obra do pintor Edgard Tytgat. Estas imagens integram um livro não publicado em Portugal, «Prólogo de um amor partido». Esta autora destaca-se por realizar desenhos que são impressos a partir de gravuras feitas em suporte de madeira.
Participaram cerca de mil e trezentos candidatos a esta bienal de ilustração, tendo ainda sido destacados Isidro Ferrer, Alessandro Lecis, Alessandra Panzeri e Martin Jarrie. Foram ainda destacados ilustradores portugueses como André Letria ou Gémeo Luís entre outros.
Isabelle Vandenabeele terá a sua obra divulgada numa exposição geral a realizar em Fevereiro de 2010, no Museu da Electricidade, em Lisboa.
Aos curiosos, a página da Ilustrarte divulgará as ilustrações em concurso neste e em anos anteriores. Aqui.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O Sorriso

Creio que foi o sorriso
O sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
Lá dentro, apetecia (...)
Correr, navegar, (...) (1)

Na História Contemporânea quantas ideias brilhantes anunciadas, quantas revoluções a prometer uma manhã nova e mais feliz e todavia a tanta violência temos assistido. Tão grandes ideais que na grande maioria dos casos, quase sempre esqueceram o mais simples. Tanta genialidade para descobrirmos que na simplicidade, por ela teríamos chegado muito mais depressa, e com outro olhar ao nosso próprio futuro, o da nossa humanidade.

Arin Ahmed, uma jovem universitária palestiniana, num parque perto da capital de Israel, preparava-se para concretizar o que planeara durante anos, fazer-se explodir. Nenhum raciocínio, nenhum ideal a tinha feito parar na sua decisão de retirar a vida aos que serão os inimigos da sua cultura. No fim, acabou por não concretizar o acto pensado na defesa de um território, de um povo, mas com custos tão elevados, como a morte de inocentes.

O que a travou? O sorriso de uma criança. Afinal ainda há esperança para a raça humana, mesmo quando a comunicação entre culturas e civilizações parece impossível.


(1) Eugénio de Andrade, «O Sorriso», in Antologia Poética
Imagem, in Duda Daze

terça-feira, 1 de dezembro de 2009


Tenho uma cidade inteira
no livro de bolso.


Uma esquina de segredos que eram a meias
e se escapavam num rasgão,
naquele desencontro ou noutro. Tenho
uma cidade inteira no bolso e levo escondidas
no casaco noites como aquela em que à conta de
atravessarmos as árvores e arrancarmos raízes,
trocámos os cheiros da terra por histórias
que não precisam de chão. Passámos a ter janelas
para dentro
no lugar dos botões.


Tenho uma cidade de costuras
pouco urbanas,
de buracos remendados com má caligrafia. Tenho
vírgulas gastas, travessões que ninguém quer
a pontuar os encontros nas ruas, quando
destas ruas ainda se faziam margens
para nos esperarmos uns aos outros.
Tenho uma aldeia que se ergue à altura dos olhos
e contorna rotundas com alfinetes de betão.


Tenho uma cidade no bolso
de contrabando.

Minês Castanheira, Inter-cidades, Letras e Coisas
Imagem, in Pinzelladasalmón

Stanley goes for a Drive

stanley goes for a drive from Lola Corbalán on Vimeo.

Fernando Pessoa - A universalidade do Homem

«Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes« (1)

O apelido de Pessoa remete-nos para o teatro grego, as máscaras com que cada um enfrentava as dificuldades, os desastres a que não cediam de ultrapassar.
Pessoa transporta-nos para essa noção de diversidade, de multiplicidade do individual.
O poeta de que aqui falamos e que hoje se evoca o seu desaparecimento físico há justamente setenta e quatro anos, é uma figura marcante da cultura europeia e mundial. Representa a procura para num mundo colectivo, exprimir a voz do indivíduo, do seu olhar e das suas possibilidades.

Pessoa foi influenciado por um conjunto de circunstâncias, as suas, a do seu tempo, que lhe criou um ambiente histórico onde já se determinavam as dificuldades do Portugal Contemporâneo. A saber, O Ultimatum inglês, a decadência da monarquia, as dificuldades de afirmação da República, a instabilidade política e social, os acontecimentos trágicos à volta de Sidónio Pais. A confirmação de um regime onde a dignidade do ser não existia assegurou-lhe um Portugal cinzento, sem visão, nem futuro.
Pessoa soube criar uma poética que respondia à multiplicidade individual, oferendo-nos a dimensão moderna, universal do homem como medida de realização de um todo. Afinal o que pode ser a vida?

Neste caminho em contínua aprendizagem que dimensão nos pode transportar para uma felicidade mais próxima da respiração de cada um? Um trajecto sem emoção e sem razão, como em Alberto Caeiro, ou o modernismo tecnológico do mundo de Álvaro Campos, ou os constantes valores culturais da memória de Ricardo Reis? Afinal não são os heterónimos diferentes possibilidades de olhar para a afirmação do género humano nessa aventura que é viver?
Em todo este complexo modo de ser, Pessoa afirmou-nos que é pela força das ideias que o País poderá ter a sua única possibilidade de se afirmar no mundo desenvolvido. A Mensagem, mais do que um relato de feitos do passado transporta-nos para essa ideia de um Quinto Império em que Portugal para ser autónomo, diferente, melhor, só o pode concretizar se for autêntico, se souber assumir a sua verdadeira dimensão.

Pessoa afirmou-se modernista pela sua tentativa de transformar o futuro do País pelas ideias, pela arte, pela cultura, no sentido de cada indivíduo poder participar na construção de uma comunidade. Quantos que governaram este País, inclusivé no presente, se esqueceram deste simples princípio?
Pessoa é um criador universal, porque soube criar as diversas possibilidades do indivíduo, a sua multiplicidade onde se encontram inscritos, os valores humanos. Afinal o que poderemos ser em cada dia, reconstruindo o futuro quotidianamente, é uma das suas grandes ideias. Partindo de uma experiência individual, as suas palavras reforçam a nossa humanidade, como valor universal.


Só os homens geniais conseguem acima da espuma dos dias, verificar o movimento mais profundo e compreender como poderemos ser mais dignos como País, nas palavras de Almada. Existir é pouco para uma dimensão mais consciente da vida. A genialidade de Pessoa é essa. A de revelar a necessidade de quebrar a incerteza que reina nestas praias em sucessivas gerações. Mariano Deida afirmou há um ano, que o poeta de autopsicografia inventou a própria literatura, no sentido não de ter criado palavras novas, mas de nos revelar dimensões novas ao sentido humano.

(1) Ricardo Reis, Odes
Imagem, in f.Pessoa.com